Lab LA Fuente reúne projetos de toda a América Latina e movimenta cena do cinema em Cuiabá

Evento fomenta circulação e articulação do cinema latino-americano e profissionaliza produtores e artistas locais

Da Redação, por Ana Luiza Queiroz

O Lab LA Fuente encerrou sua segunda edição em Cuiabá hoje (13). Durante cinco dias, ele se tornou um espaço de encontro, formação e articulação do cinema latino-americano fora do eixo Rio–São Paulo. Realizado no Teatro da UFMT e no Cine Teatro Cuiabá, o laboratório favoreceu trocas intensas entre realizadores, produtores, artistas e pesquisadores do Brasil e de diversos países da América Latina.

Com a proposta de fortalecer o audiovisual independente e ampliar a circulação de narrativas produzidas em territórios historicamente invisibilizados, foram reunidos projetos de curta e longa-metragem em desenvolvimento, vindos de Mato Grosso, de outros estados brasileiros e de países como Paraguai, Argentina, Peru, Chile, Colômbia e Equador. 

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A programação combinou atividades de formação, momentos artísticos e espaços abertos ao público. A abertura no Cine Teatro Cuiabá contou com performance cênica e apresentação dos projetos selecionados, seguida de exibição de filme. Nos dias seguintes, no Teatro da UFMT, o evento seguiu com painéis sobre desenvolvimento, roteiro, coprodução e distribuição, oficinas, sessões de pitching e exibições de produções latino-americanas, além de uma programação cultural paralela.

Os projetos selecionados tiveram acesso a consultorias individuais com especialistas nacionais e internacionais em produção, roteiro, políticas públicas e mercados audiovisuais. Entre os longas de Mato Grosso estiveram “Cuiabá 50 graus”, “Chuva do caju”, “Pirilampos”, “O canto da voz silenciada”, “A Grande Renúncia”, “Cinema Regional no Mato Grosso” e “Rock (R)Existe: Perseverança e Sobrevivência do Rock Independente no Cenário Cuiabano”. Na categoria de curtas, compuseram o laboratório obras como “(En)fim”, “Minha Velha Libélula”, “Memórias Póstumas”, “A Cigarra Mulher” e “Mulheres de Água e Barro – Vozes do Quilombo”.

Além da imersão dos projetos, o Lab LA Fuente abriu inscrições gratuitas para participantes com acesso integral à programação formativa e certificado de 60 horas, bem como vagas para monitores e para uma equipe de cobertura colaborativa em fotografia, vídeo, texto, design e mídias sociais. As atividades abertas permitiram a aproximação do público cuiabano do debate sobre cinema, cultura e processos criativos na região.

Para o documentarista Uri Bezerra, que participou com um projeto em desenvolvimento, a experiência vai além da programação formal. “O Lab La Fuente ainda não acabou, mas já conheci pessoas extraordinárias no sentido do olhar delas e espero manter contato, mas acho que já conheci o início”, afirma.

Uri participa com o projeto “Memórias Póstumas”, assinado em parceria com o colega Dom. “A gente quer falar sobre o legado que um pai de santo, líder quilombola, deixou no quilombo de Mata-Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento, só que essa história não vai ser a gente que vai contar, quem vai contar essa história vão ser as pessoas que viveram com o Nezinho”, explica. Segundo ele, a proposta é construir um filme observativo, ancorado na memória oral dos moradores. “Nisso a gente quer mostrar também que o Nezinho, além de ser essa figura bem conhecida, ele também era humano, com suas qualidades e defeitos, a partir das perguntas que a gente quer extrair dessas personagens”, conta.

A imersão nas consultorias foi decisiva para a reformulação de “Memórias Póstumas”. “O projeto estava, por enquanto, só escrito e dúvidas e desafios a gente não enxergava. Para nós, era só pegar uma câmera e começar a rodar a partir do texto escrito do projeto, mas isso já acarretava até nas assessorias”, conta Uri. “A partir da primeira assessoria que a gente teve, o projeto virou quase de cabeça para baixo. A gente teve que pensar em outra forma de escrita, porque o laboratório prepara a gente para editais e a escrita tem que ser conforme os editais desejam. Pensar em escrita de argumento, de documentário, é uma coisa que, na minha visão, é bem mais complexa do que na ficção. Então tira bastante energia, mas também é bastante produtivo e acrescenta muito na nossa visão artística, de produção e de cinematografia”.

Um dos momentos decisivos para a dupla veio na etapa final do laboratório. “Teve um movimento vira-chave justamente ontem, depois da nossa última consultoria com a Gabriela Mandi. Eu não lembro o nome dela agora, mas ela é uma produtora do México e da Bolívia. E ela literalmente fez a gente enxergar no nosso projeto uma palavra que a gente estava buscando, mas a gente não sabia que estava ajudando a gente a desencalhar de um ponto que a gente parou sobre o que a gente quer fazer com o nosso projeto, o que a gente quer discutir”, relata. 

A escuta atenta também se reflete nas escolhas éticas e de linguagem da equipe. Uri destaca que as entrevistas com quem conviveu com Nezinho serão conduzidas por uma personagem que faz parte da rotina do quilombo. “Acho que vale lembrar também que essas perguntas não vão ser feitas por nós, mas por uma personagem que faz parte da rotina do quilombo. A gente não quer se intrometer nesse ambiente, porque nós não somos do quilombo. Então a gente quer fazer esse filme bastante observativo sobre essas conversas sobre Nezinho”, finaliza.

A edição 2026 foi realizada pelo LA Fuente – Laboratório Latino-Americano de Produção Criativa e pelo Mutirum Instituto da Cultura, com apoio da Universidade Federal de Mato Grosso, por meio do Teatro da UFMT e de ações de extensão ligadas à cultura. O projeto foi financiado pela Lei Paulo Gustavo – Cinemotion de Formação, por meio do Governo de Mato Grosso e da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT).

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