Filme de Amauri Tangará ocupa o quinto lugar do Top 10 da categoria História e Estética do Cinema Brasileiro, bem à frente de clássicos glauberianos
Por João Orozimbo Negrão
A Tela Brasil, plataforma pública de streaming que foi inaugurada nesse sábado (30), traz obras de três importantes cineastas de Mato Grosso: o veterano Amauri Tangará, Tati Mendes e Severino Neto, um dos expoentes da nova geração de realizadores no Estado.
Tangará aparece com “A Oitava Cor do Arco-íris”, um clássico do início do século. Tati, companheira dele de vida e realizações, assina com Amauri o documentário “Nós – A Metade de Tudo”. Neto tem no catálogo três documentários: “Chumbo”, “Composto” e “Sísmico”.
Assisti ontem “A Oitava Cor do Arco-íris” – ou melhor, reassisti, pois tive a honra de ver o filme em exibição especial quando de seu lançamento em 2004. Reuni filhos e amigos aqui de Brasília e tive a oportunidade de apresentar ao amigos a personagem central do drama, que não é creditada.
“A Oitava Cor do Arco-íris” ocupava, até a manhã deste domingo, a quinta posição do Top 10 da categoria História e Estética do Cinema Brasileiro, bem à frente, no mesmo ranking, dos clássicos glauberianos “Deus e o diabo na terra do Sol” e “A idade da terra”. Um orgulho para este brasiliense que viveu quase metade da vida em Mato Grosso, construiu sua carreira e teve seus filhos.

A categoria História e Estética do Cinema Brasileiro, informa a plataforma, é “dedicada às obras que percorrem a história e as transformações estéticas do cinema brasileiro, dos ciclos regionais e chanchadas ao Cinema Novo, udigrúdi, pornochanchada, retomada, pós-retomada, além de produções de estúdios, TVs pioneiras, cinejornais e registros históricos”.
Rever “A Oitava Cor do Arco-íris” foi mais que uma satisfação pessoal de revisitar este clássico do cinema mato-grossense. O filme de Amauri Tangará é um poema e ao mesmo tempo uma crônica, para além do drama vivido por Joãozinho, que sai em sua jornada na tentativa de vender a cabrita Mocinha e comprar remédios para sua avó doente.
O filme é um road movie que conecta a icônica vila de Nossa Senhora da Guia, um distrito, à sede do município e promove uma viagem tão poética quanto aflitiva, à medida que acompanhamos a saga de Joãozinho pelos lugares e personagens daquela Cuiabá do início do século 21. Assim, ela própria passa a ser uma personagem central da obra.
Para este espectador agora distante no tempo e no espaço, a Cuiabá de 22 anos antes é tão estranha, pois sinto que perdi a familiaridade com ela. Impossível não revolver angústias aos mesmos passos do meu xará. Porque, inclusive, vamos revendo amigos e alguns que se foram. Vamos observando lugares que resistem ao tempo e ao descaso, como aquele belo e maltratado Centro Histórico.
Aos amigos que assistiram “A Oitava Cor do Arco-íris” comigo, servi de uma espécie de “guia turístico” de Cuiabá, relatando os lugares, o povo e aquele sotaque encantador que nos deixa muitas saudades.
* João Orozimbo Negrão é jornalista em Brasília.
