Copa reacende vínculo entre brasileiros e Seleção, mas relação já não é a mesma

Pesquisa, relatos de torcedores e o impacto das redes sociais ajudam a explicar como o país acompanha a caminhada do Brasil rumo ao possível hexacampeonato.

Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto

Com a fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 avançando para a segunda rodada nesta quinta-feira (18), as atenções se voltam para os próximos jogos e para o desempenho das principais seleções. A competição marca uma nova era no futebol mundial ao reunir, pela primeira vez, 48 países divididos em 12 grupos. Nesse cenário, a Seleção Brasileira segue despertando expectativas, mas também questionamentos. Afinal, qual é a relação dos torcedores com a equipe que representa o país no maior torneio do futebol?

A Seleção Brasileira é, atualmente, a maior vencedora da história do futebol, tendo 5 títulos mundiais. Ela também é a única seleção que participou de todas as edições da Copa do Mundo, desde a primeira disputa, em 1930. Seu primeiro título veio em 1958, na Suécia, seguido consecutivamente em 1962, no Chile, 1970 no México, já com Pelé no time, 1994 nos Estados Unidos, após 24 anos de jejum, e o penta, em 2002, na Coréia do Sul e Japão, com o time de Ronaldo.

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Agora, nossa Seleção se despediu de sua torcida e embarcou em uma viagem para os Estados Unidos, onde vai disputar a fase de grupos inteiramente. Caso avance para as próximas etapas, ela ainda pode jogar partidas nos outros país sede, Canada ou México, a depender de sua classificação nos grupos.

Enquanto os resultados do primeiro jogo contra o Marrocos foram decepcionantes para a maior parte dos torcedores, com um empate amargo em um jogo difícil, o sentimento de esperança ainda permeia o coração brasileiro. Para Aline Nunes, jornalista, o futebol é imprevisível e, apesar de cética, ela afirma que os resultados podem surpreender.

“Antes, eu acreditava que a gente ia ganhar. Eu tinha aquela paixão de pensar: ‘Nossa, a gente é muito bom’, e ficava procurando opiniões de pessoas na internet que também acreditavam que o Brasil seria campeão. Agora, eu olho para a Seleção e penso que a gente não tem tantas chances, porque vejo que existem seleções muito melhores. Mas, ainda sim, eu torço muito e, se alguém me perguntar, vou dizer que o Brasil vai ser campeão, sim! Até porque, no futebol, tudo acontece de forma imprevisível. Basta ver casos como Cabo Verde empatar com a Espanha. Então, acredito que, nessa imprevisibilidade, o Brasil pode surpreender e acabar conquistando o título”, conta.

Aline ainda explica que sua relação com o futebol amadureceu em anos recentes, especialmente depois de começar a frequentar os jogos do Cuiabá na Arena Pantanal.

“Eu tinha noções básicas, bem básicas mesmo de futebol, porque eu acompanhava o time que meu pai torcia, só quando eu era criança. Depois, quando eu vim morar sozinha em Cuiabá, eu não acompanhava mais nada, não assistia mais jogo nenhum, nem nada do tipo. Aí, em 2024, eu sabia que o Cuiabá estava na Série A do Brasileirão, e eu decidi que eu ia começar a acompanhar o futebol do Cuiabá, mas como uma forma de apoio simbólico mesmo. E aí foi nessa que eu comecei a ir, eu fui em quase todos os jogos do Cuiabá na Arena, e descobri que eu gostava de acompanhar”, diz Aline.

Após o Cuiabá perder uma sequência de jogos e cair para a Série B do Brasileirão em 2024, Aline se distanciou do time. Porém, a paixão pelo futebol já tinha sido acesa, e ela continuou acompanhando o esporte, mas dessa vez seguindo o Internacional, time que torcia quando era mais nova com o pai. A partir daí, essa paixão apenas cresceu, despertando um interesse por times de outros países.

“Nisso eu comecei a namorar, e o meu namorado acompanhava muito a Champions League, mas eu não podia assistir os jogos, porque o meu horário de trabalho não permite, mas eu sempre vejo resumos ou atualizações, ou melhores momentos de jogos da Champions League também”, explica.

Fonte: Acervo Pessoal.

Por conta disso, a Copa do Mundo de 2026 é diferente para Aline agora. Antigamente, ela só assistia os jogos do Brasil e, quando a Seleção saía, a copa acabava. Porém, esse ano ela afirma estar acompanhando outros times.

“Eu assisti Holanda e Japão, eu assisti o jogo do Equador, assisti o jogo da Alemanha, um pedaço dele, assisti o jogo da Espanha inteirinho, porque eu estava muito surpresa com o Cabo Verde ali, empatando com ela, e torcendo pra Cabo Verde também. E eu acredito que se o Brasil acabar caindo na Copa, eu vou continuar acompanhando essas outras seleções e até escolhendo uma outra seleção para eu acompanhar, para eu torcer junto”, finaliza.

Por outro lado, torcedoras como Emanuelle Caroline Candido, que nunca tiveram interesse no futebol, encontram na Copa do Mundo um momento de pertencimento com o seu lado mais brasileiro.

“Meu sentimento de pertencimento é muito maior quando é o time do Brasil jogando. Por não ter questão afetiva e não ter conseguido cultivar isso em em outros times aqui dentro do Brasil, eu me concentro nessa coisa da copa que sempre existiu desde que eu era criança, então eu acho que é isso que faz eu assistir, porque eu gosto de assistir jogo do Brasil porque é do Brasil e eu sou brasileira”, conta.

É dentro do pertencimento e da vontade de fazer parte que Emanuelle encontra seu interesse em assistir os jogos. Vinda de uma família que nunca foi tão interessada em futebol, ter todo mundo em volta falando do torneio faz com que ela queira saber de tudo que está acontecendo. Nesse mesmo sentido, as redes sociais entraram para atiçar ainda mais a vontade, mas de uma maneira diferente.

“E agora com TikTok eu tenho acompanhado bem mais. É um assunto que vem chegando até mim e eu vou sabendo outras coisas, tipo, não só do futebol, sabe? História de algum país que entrou agora, a história daquele goleiro, Vozinha, a história de porque que as chuteiras estão rosas, então eu me conecto com outros assuntos que eu gosto mais do que só o futebol ali jogando, entendeu?”, finaliza.

Fonte: Reprodução.

Se para alguns brasileiros a Copa é um momento de reconexão com a identidade nacional, para quem vive fora do país o torneio também pode representar uma oportunidade de matar a saudade de casa. É o caso da atriz Giovanna Xavier, de 25 anos, que mora atualmente em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde cursa o último semestre do mestrado em atuação.

Mudando-se para o país em busca de aprofundamento profissional e oportunidades no cinema internacional, ela agora acompanha a Copa do Mundo diretamente de um dos países-sede da competição.

“Eu fiquei muito feliz em saber que o Brasil estaria jogando aqui. Tem sido muito bom sentir esse clima de Copa, ver o verde e amarelo nas ruas, isso traz uma sensação muito forte de pertencimento. Ao mesmo tempo, é uma mistura de emoções, porque me traz um conforto e uma alegria de poder viver isso aqui, mas também um gostinho de Brasil que mata um pouco a saudade de casa. É como se, por alguns momentos, eu conseguisse juntar esses dois mundos”, relata.

Apesar da proximidade geográfica com o torneio, assistir aos jogos da Seleção nos estádios ainda é um desafio.

“Eu gostaria muito de ir aos jogos do Brasil, mas a maioria vai acontecer do outro lado do país e não são tão acessíveis para mim neste momento. Então, provavelmente não vou conseguir estar em nenhum desses jogos. Alguns jogos de outras seleções que vão acontecer mais perto de Los Angeles talvez eu consiga assistir, mas ainda assim não estão tão acessíveis”, conta.

Para ela, a realização da Copa nos Estados Unidos também tem ajudado a ampliar o interesse local pelo futebol, tradicionalmente menos popular do que outras modalidades esportivas.

“Principalmente agora com os Estados Unidos jogando bem, isso tem sido mais bem recebido. Dá para perceber um interesse maior do público, mas ainda muito concentrado em pessoas que já têm uma relação mais próxima com outras culturas, estrangeiros ou americanos que convivem com ambientes internacionais. Ainda assim, acho que o envolvimento está crescendo”, comenta.

Mesmo longe do Brasil, Giovanna Xavier afirma que a comunidade brasileira encontra formas de manter viva a tradição de torcer coletivamente. “Existem vários pontos de encontro. Tem FIFA Fan Fest, festas brasileiras, bares que transmitem os jogos e até churrascos organizados por brasileiros. O importante é estar em grupo, sentir essa energia coletiva e viver esse momento como se estivéssemos um pouco mais perto do Brasil.”

Fonte: Reprodução.

Já Giovanna Baiocco, jornalista, estudante de pós-graduação em jornalismo esportivo, tem expectativa que o Brasil ainda chegue longe nesta copa, mas não como um favorito isolado. Ela é criadora do Desconvocados, um Podcast que fala sobre a relação do torcedor brasileiro com a amarelinha. Debatendo sobre o afastamento da torcida brasileira com sua Seleção, Giovanna enxerga que a Copa do Mundo é um mobilizador natural.

“Acredito que o afastamento ainda existe, mas de forma menos intensa do que durante o período em que realizei a pesquisa. Com a aproximação da Copa do Mundo, é natural que a Seleção volte a mobilizar os torcedores e desperte um sentimento de identificação que muitas vezes fica adormecido entre os ciclos. Também percebo uma maior conexão do público com alguns jogadores da atual geração, inclusive atletas que atuam no exterior”, conta Giovanna.

Em sua pesquisa, Giovanna percebeu que o afastamento entre a torcida e a Seleção não é explicado por um único fator, mas que envolve a crise de credibilidade da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a crescente comercialização da Seleção, a elitização do acesso aos jogos e a perda de identificação de parte dos torcedores com a equipe. Para ela, esses fatores somados contribuíram para enfraquecer uma relação que, por muitos anos, foi marcada por um forte sentimento de pertencimento e representação nacional.

Giovanna também acredita que grande parte do entusiasmo do torcedor migrou para o ambiente digital. Ao contrário das manifestações tradicionais que marcavam as Copas do Mundo no Brasil, com ruas pintadas e decoradas, hoje o torcedor encontra nas redes sociais o principal espaço para expressar sua paixão e compartilhar suas emoções.

“Talvez a manifestação desse entusiasmo tenha migrado mais para os ambientes digitais, redes sociais e grupos de conversa do que para as ruas. Então, não acredito que o sentimento de “país da Copa” tenha desaparecido, mas sim que ele passou por transformações e hoje se expressa de maneiras diferentes”, finaliza.

Hoje o torcedor encontra nas redes sociais, grupos de conversa e transmissões digitais o principal espaço para expressar sua paixão e compartilhar suas emoções. Fenômenos como a popularização da CazéTV ajudaram a transformar a forma de acompanhar o torneio, aproximando a cobertura esportiva de uma linguagem mais informal e participativa. Na estreia do Brasil, a CazéTV atingiu o recorde histórico de 12,7 milhões de dispositivos conectados simultaneamente, se tornando a maior transmissão simultânea da história do YouTube no mundo.

Para Giovanna, entre o afastamento e a esperança de reencontro, a torcida brasileira ainda busca se reconhecer na Seleção.

Fonte: Reprodução.

O Brasil volta a entrar em campo para a segunda rodada da fase de grupos nesta sexta-feira (19), às 20h30 do horário de Cuiabá.

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