Presente em Mato Grosso por meio do Templo Shinyouji, tradição centenária originária do Japão reúne praticantes, promove eventos culturais e desperta o interesse de novos visitantes na Capital
Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto
O Budismo Primordial tem conquistado espaço em Cuiabá como um caminho de desenvolvimento espiritual baseado na disciplina, na compaixão e na transformação pessoal. No Templo Shinyouji, localizado na capital mato-grossense, no bairro Santa Rosa, o aumento do número de visitantes tem acontecido de forma gradual, impulsionado pela curiosidade de quem busca uma vida mais equilibrada.
O Templo Shinyouji é a 11ª unidade da Honmon Butsuryu-Shu (HBS) no Brasil, escola conhecida como Budismo Primordial. Sua primeira sede foi inaugurada em Cuiabá em 1997. Desde 2019, o templo funciona no bairro Santa Rosa.
“Percebo que o número de visitantes aumenta, mas é um crescimento bem orgânico, muito alinhado ao nosso esforço de divulgação. Principalmente por causa da internet, o Budismo tem despertado mais interesse”, conta Bruno Fernandes, estudante e responsável por conduzir as cerimônias dominicais quando o monge da instituição está ausente.
Embora o Budismo esteja presente no Brasil há mais de um século, sua história acompanha a imigração japonesa. A religião ganhou força no início do século XX, quando milhares de japoneses chegaram ao país para trabalhar nas lavouras de café, principalmente na região Sudeste.

Foto: Budismo Primordial.
Ao longo das décadas, templos e comunidades ajudaram a preservar não apenas a prática do Budismo, mas também tradições da cultura japonesa. Hoje, o Brasil abriga a maior comunidade de japoneses e descendentes (nikkeis) fora do Japão, com uma população estimada entre 2,5 milhões e 2,7 milhões de pessoas, de acordo com dados do IBGE.
Esse movimento de conservação e crescimento da religião também é observado pelo pesquisador Gabriel José Pena na monografia “Budismo no Brasil: como a religião persiste na nova realidade religiosa”. No trabalho, ele aponta que o budismo brasileiro deixou de ser uma religião restrita às comunidades japonesas e passou a despertar o interesse de pessoas de diferentes perfis, que se aproximam da tradição por meio da meditação, da filosofia budista e da busca por uma vida mais equilibrada.
A pesquisa ainda destaca que cerca de 40% dos templos budistas da América Latina estão no Brasil, e que o maior centro budista brasileiro é São Paulo, estado que concentra aproximadamente 40% dos templos do país. Ainda de acordo com Gabriel José Pena, atualmente existem aproximadamente 160 grupos budistas, pertencentes a diferentes tradições e níveis de organização, incluindo escolas japonesas, chinesas, coreanas e tibetanas.
Para Bruno, o interesse pelo Budismo surgiu da forma como a religião propõe compreender a vida e das transformações que a prática trouxe para sua rotina.
“Eu me interessei pela coerência e pela proposta de uma forma mais equilibrada de viver. É uma fé que não convida você a buscá-la apenas nos momentos difíceis, é um exercício religioso que transforma a pessoa aos poucos. Você começa a perceber mudanças profundas na maneira de lidar com os problemas, reconhecer quando as coisas estão bem e enfrentar a vida com mais equilíbrio.”
No Budismo Primordial, a rotina diária vai além da meditação. O cuidado com o altar faz parte do exercício espiritual e simboliza respeito e dedicação.
“A meditação é diária, mas ela começa antes, com o cuidado dedicado ao altar. Existe uma forma específica de limpá-lo, oferecer flores, trocar a água e até preparar o café que é ofertado ao Buda. No Japão, tradicionalmente se oferece arroz pela manhã, mas aqui no Brasil essa tradição foi adaptada ao café.”

Foto: Reprodução.
Nos domingos em que o monge Eishin Suzuki está em outra unidade do templo, Bruno conduz a cerimônia local. Após a meditação, os participantes acompanham uma mensagem gravada pelo religioso diretamente de Presidente Prudente (SP), mantendo o momento de ensinamento presente na celebração.
Para além da maneira diferente de enxergar e enfrentar a vida diariamente, Bruno ainda destaca que o Budismo ensina o olhar para o próximo como uma de suas prioridades.
“Muita gente fala sobre atenção plena, mas acredito que o verdadeiro espírito do Budismo seja a compaixão. É esse exercício constante de doação ao próximo. Se conseguirmos levar esse espírito para tudo o que fazemos, certamente colheremos bons frutos”, conta.
Além das cerimônias, o Templo Shinyouji realiza periodicamente uma feira aberta ao público. O evento ajuda na manutenção da instituição e também aproxima a população da cultura e da filosofia budista. Segundo Bruno, a feira é uma oportunidade para conhecer o templo sem compromisso.
“As pessoas podem visitar o espaço, tirar dúvidas, experimentar a culinária, conversar conosco e entender um pouco mais sobre o Budismo. Mesmo que não decidam seguir esse caminho, esperamos que levem daqui alguma experiência positiva”, finaliza.

Foto: Divulgação.
O Buda
A palavra Buda significa “o desperto” ou “aquele que alcançou o despertar”. No budismo, o termo se refere à pessoa que atingiu a iluminação ao compreender a natureza da existência e superar o apego, a ignorância e o sofrimento.
Diferentemente do que muitos imaginam, Buda não é um deus criador nem um salvador. Seus ensinamentos apresentam um caminho para que cada indivíduo desenvolva sabedoria, compaixão e consciência, buscando a libertação do sofrimento por meio das próprias ações.
Quando se fala simplesmente em “o Buda”, a referência costuma ser a Siddhartha Gautama (Buda Shakyamuni), fundador do budismo há cerca de 2.500 anos. Segundo a tradição budista, outros Budas existiram no passado e novos surgirão no futuro, transmitindo novamente os ensinamentos quando eles se perderem ao longo do tempo.
