Um não sei o quê

“Chegando em casa fui direto pro banheiro e providenciei o sumiço imediato do fiapo de bigode”

Uma crônica de Lorenzo Falcão*

Cortar o cabelo. Tempo vai, tempo vem, chega um dia que a gente tem que fazer isso. É a chance de dar um trato no visual. Mais do que chance, é uma necessidade. Pra ficar mais bonito, ou menos feio. Eu não gosto de ficar sentado numa cadeira durante trinta minutos ou menos, com alguém que não conheço ‘fazendo a minha cabeça’.

“Pode tirar bastante o comprimento, mas tire menos na parte de cima da cabeça, ok?”. Respondi ao barbeiro que me atendeu, numa barbearia (ou salão), com decoração voltada para o público infantil. Tinha até um espaço onde o Homem Aranha estava espalhado pelas paredes e os profissionais também estavam vestidos a caráter.

E a tosa começou, acompanhada por aquela conversa trivial dessas ocasiões. Pedi para que raspasse também a minha barba rala. Ainda bem que tenho barba rala, já que odeio raspar meus pelos faciais e, sempre que faço isso, sai um serviço matado.

Ao longo de toda minha vida sempre reparei em homens que têm uma barba cerrada e me sinto um privilegiado por não ter abundância de pelos na face, o que seria um enorme transtorno para mim. Embora considere que a barba rarefeita, quando não devidamente raspada, produza efeitos visuais decadentes em qualquer um.

“Não tenho capacidade de dizer que sou feio, mas o que via no espelho não combinava com minha boniteza”

Fiquei envolvido nesses pensamentos, enquanto a tarefa se desenvolvia. O barbeiro já empunhava a máquina eliminando os pelos do meu pescoço, do meu queixo e do meu rosto. “Deixe o bigode”, ordenei, apesar de ter uma relação de amor e ódio com bigodes. E a coisa terminou…

Olhei-me bem no espelho, virei o rosto para um lado e para o outro. Achei que eu estava estranho e parecido com ‘um não sei o quê’. Não tenho capacidade de dizer que sou feio, mas o que via no espelho não combinava com minha boniteza. E em minha cabeça estava esse imbróglio desagradável. Eu acho que no fundo no fundo, já sabia com quem estava parecido. Torei pra minha casa, onde permaneci incomodado por mais alguns minutos. Fiz uma selfie da qual não gostei nada e me preparei para ir à sessão de pilates, atividade que venho fazendo há quase um ano.

Cheguei ao local do pilates, apertei a campainha e a professora abriu a porta rapidinho. Ela, canalha que nem eu, ao se deparar com meu novo look, disparou: “heil hitler”. Pronto. Era o ‘não sei o quê’ com o qual eu estava parecido, mas me recusava a aceitar. Terminada a atividade física, voei pra minha casa com a mão direita espalmada em frente ao meu rosto, como faz uma pessoa, quando não quer ser reconhecida.

Nesse trajeto breve rememorava meu vacilo. Solicito do barbeiro um corte ao estilo militar, com um bigodinho cretino… Francamente!!! Chegando em casa fui direto pro banheiro e providenciei o sumiço imediato do fiapo de bigode. Também desalinhei o cabelo que estava no formato desfile cívico. Não me passou pela cabeça o velho ditado ‘as aparências enganam’.

Sim, foi um episódio engraçado que aconteceu comigo. Mas, para além de tudo que narrei aqui, segue um alerta nesta crônica. É importante sabermos todos que os nazistas e os fascistas prosseguem perambulando por este mundão sem porteiras: ‘Liberdade! Liberdade! Abre as Asas sobre Nós’.

* Lorenzo Falcão, jornalista, poeta e escritor

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