Casa Sagrada une lambadão e cultura ballroom em programação gratuita em Várzea Grande

Projeto promove oficinas, rodas de conversa e baile aberto ao público nos dias com o objetivo de valorizar a produção cultural mato-grossense e aproximar diferentes expressões artísticas

Da Redação

O lambadão, ritmo que faz parte da identidade cultural e memória afetiva de Mato Grosso, vai dividir a pista com a cultura ballroom em uma programação que celebra a diversidade, a ancestralidade e a potência artística das periferias. Promovido pela Casa Sagrada, o projeto Baile Lambadão das Sagradas realiza, nos dias 6, 7, 13 e 14 de novembro, uma série de atividades gratuitas no Centro Cultural Orla da Alameda Júlio Muller, em Várzea Grande.

A iniciativa reúne oficinas de dança, estética e expressão corporal, rodas de conversa e um baile com apresentações e disputas em diferentes categorias. A proposta é promover o intercâmbio entre o Vogue, estilo de dança da cultura ballroom, e o lambadão, aproximando duas manifestações culturais que, embora tenham origens e trajetórias distintas, compartilham a força da expressão corporal, da coletividade e da ocupação dos espaços por comunidades historicamente marginalizadas.

As inscrições para as oficinas podem ser feitas por meio do link.

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A ideia nasceu da própria identidade da Casa Sagrada, coletivo fundado em 2023 e integrante da cena Ballroom MT. Formada majoritariamente por pessoas negras, LGBTQIA+ e periféricas, a comunidade reúne integrantes de Várzea Grande, Cuiabá e Palmas (TO). Para Lupita Amorim, coordenadora geral do projeto, a aproximação entre as duas linguagens acontece de maneira natural, já que o lambadão está presente na vivência de boa parte das pessoas que integram a casa.

“Desde o começo, a gente já buscava essa aproximação da cultura ballroom com os elementos culturais de Várzea Grande. Somos uma casa formada, em sua maioria, por pessoas que moram em VG, então o lambadão nos atravessa, não tem como fugir disso. É uma cultura que está nas nossas festas, nos bairros, nas nossas memórias, na nossa vivência mesmo”, explica.

Além da identificação cultural, a iniciativa busca reconhecer a produção artística do próprio território. Segundo Lupita, tanto o lambadão quanto a ballroom são expressões que dialogam com experiências de comunidades negras, indígenas, LGBTQIA+ e periféricas, que encontram na arte formas de celebrar suas existências, construir identidades e reivindicar espaços.

A relação com o lambadão também passa pelas lembranças de infância dos integrantes da Casa Sagrada. As festas de santo e os eventos beneficentes realizados nos bairros, ao lado de familiares, são algumas das referências que o coletivo pretende resgatar no baile. A intenção é recriar esse ambiente de encontro e celebração, valorizando as músicas produzidas na região e a energia das festas populares.

Equipe da Casa Sagrada.
Foto: Reprodução.

Casa Sagrada: acolhimento, resistência e pertencimento

Criada em 2023, a Casa Sagrada surgiu em um momento de fortalecimento da cultura ballroom em Cuiabá e Várzea Grande. O coletivo se constituiu como um espaço de acolhimento e articulação artística para pessoas negras, LGBTQIA+ e periféricas, reunindo diferentes talentos e trajetórias. Atualmente, a casa conta com 16 integrantes, com idades entre 19 e 70 anos.

O próprio nome traduz a maneira como o grupo enxerga sua existência, onde a palavra “sagrada” representa a possibilidade de viver para além das marginalizações impostas socialmente aos seus corpos.

“Somos sagradas porque celebramos a nossa existência com autenticidade, beleza e muita força de vontade de existir como seres com desejos, vontades e expectativas!”, afirma a equipe.

Ao longo de sua trajetória, a Casa Sagrada já conquistou premiações na cena ballroom em categorias como Face, Runway e Tag Team Lambadão. Para os integrantes, entretanto, a continuidade do coletivo vai além das conquistas individuais e dos reconhecimentos em competições. A organização comunitária é parte fundamental da permanência da casa, que também celebra os trabalhos desenvolvidos por seus integrantes em diferentes áreas, como literatura, música e audiovisual.

Os desafios, contudo, permanecem. A falta de oportunidades e de financiamento para iniciativas conduzidas por grupos historicamente marginalizados é apontada como um dos obstáculos para a manutenção de espaços culturais independentes em Mato Grosso.

“Somos pessoas negras, LGBTQIA+ e periféricas, os desafios sociais estão dados. Porém, nos organizamos coletivamente para estarmos física e emocionalmente disponíveis para nos manter animadas, inspiradas e motivadas a celebrar as conquistas individuais e coletivas de cada pessoa integrante da casa”, destaca o coletivo.

Primeiro projeto aprovado em edital

O Baile Lambadão das Sagradas também representa um marco na trajetória da Casa Sagrada, já que é o primeiro projeto do coletivo selecionado em um edital público. A iniciativa foi contemplada pelo Edital nº 03/2026 – Circuito Cultural, da Lei Aldir Blanc, promovido pela Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Várzea Grande, e conta com a co-realização do Comitê de Cultura de Mato Grosso.

Até então, ações semelhantes eram realizadas com recursos próprios, parcerias e mobilização dos integrantes. A aprovação possibilitou ampliar a proposta, desenvolver atividades que antes permaneciam no campo das ideias e, principalmente, garantir remuneração às pessoas envolvidas na execução do projeto.

“Amamos aplausos, porém sabemos que sozinhos não garantem a continuidade de nossas existências, precisamos de fomentos!”, enfatiza a coordenação.

A experiência também reforça a importância de ampliar o acesso às políticas públicas de cultura para coletivos independentes, inclusive aqueles que não possuem CNPJ. Para a Casa Sagrada, o incentivo financeiro permite não apenas a realização de eventos, mas o reconhecimento do trabalho artístico e cultural desenvolvido por essas comunidades.

Programação valoriza artistas e expressões culturais locais

A programação começa nesta sexta-feira (6), com a roda de conversa “Políticas Públicas Culturais”, às 18h, que contará com a participação de Kennid Teixeira, mestre em Comunicação e Poder, e Vannessa Jacarandá, coordenadora-geral do Comitê de Cultura de Mato Grosso. Na sequência, das 18h30 às 21h30, Wanderson RD e Taty Maria conduzem uma oficina de lambadão para iniciantes, com foco nos movimentos de condução e acompanhamento da dança.

No sábado (7), as atividades começam às 9h30, com a oficina de Estética e Upcycling, facilitada por Ozan, que propõe a criação de figurinos e adereços inspirados na estética regional, utilizando chitas e tecidos brilhantes. À tarde, das 14h às 17h, Geovana Rodrigues ministra a oficina de Face, voltada à expressão facial, poses, beleza, atitude e autenticidade na cultura ballroom.

A programação retorna na sexta-feira (13), às 18h30, com a roda de conversa “Personalidades do Lambadão, Flashback e da Cena Ballroom”. O encontro terá a participação de Lunna Montty, Wanderson RD e Linda Jane Lúcia, com mediação de Lupita Amorim.

Um dos destaques desta edição é a presença de Lunna Montty, que vem a Cuiabá pela primeira vez para participar do evento. A artista também será responsável pela oficina de Vogue Femme, das 20h às 21h30, na qual apresentará fundamentos da modalidade, explorando movimentos, poses, performance e expressão corporal.

O encerramento acontece no sábado (14), das 18h às 22h, com o Baile Lambadão das Sagradas. Aberto a todas as pessoas, o evento contará com apresentações de Josy Campos, Sophie Silva, Wanderson RD e Taty Maria, além de disputas em dez categorias, todas com premiação em dinheiro e entrega de troféus personalizados produzidos pela artista Ally Brown, integrante da comunidade ballroom de Mato Grosso. Uma categoria surpresa também integra a programação.

Para os organizadores, o baile é uma oportunidade de aproximar o público de uma manifestação cultural que ainda é pouco conhecida por parte da população, mas que possui uma história de resistência, expressão e construção coletiva.

“Não queremos que seja um evento só para quem já conhece a ballroom. Queremos que as pessoas cheguem, conheçam, entendam um pouco dessa cultura e se sintam à vontade para participar. É também uma oportunidade de mostrar que Várzea Grande produz cultura, que a periferia produz arte, produz conhecimento, produz estética”, ressalta a coordenação.

Mais do que uma programação de entretenimento, o projeto pretende deixar um legado para a cena cultural local, incentivando a participação de novas pessoas e o fortalecimento de espaços independentes. As oficinas e atividades formativas são pensadas como oportunidades para que os participantes conheçam a história da ballroom, desenvolvam suas habilidades e reconheçam suas próprias possibilidades de criação e pertencimento.

“Temos nossas próprias referências, nossos ritmos, nossas estéticas. E espero muito que as pessoas levem isso para além do evento, que continuem dançando, criando, participando da cena e fortalecendo esses espaços”, conclui a coordenação.

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