Manifestação reúne tradições afro-brasileiras, devoção popular e valorização da memória negra em um dos espaços mais simbólicos da capital mato-grossense
Da Redação, por Ana Luiza Queiroz
Água de cheiro, flores, tambores, vestimentas brancas e orações tomam conta das escadarias da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito todos os anos em Cuiabá. Para além de uma das celebrações religiosas, a Lavagem do Rosário se tornou um dos principais símbolos da valorização da cultura afro-brasileira na capital mato-grossense.
Em 2026, a manifestação completa uma década de existência, consolidada como um ato de fé, memória, resistência e afirmação da identidade negra. Neste ano, ela será realizada no dia 27 de junho e traz como tema “Saudemos os Imigrantes” e o lema “Por uma Cultura de Paz”, homenageando os povos que deixaram suas terras de origem e contribuíram para a construção da história, da cultura e da identidade cuiabana.
A programação terá início às 7h, com café da manhã no Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (MISC). Às 8h30, os participantes seguem para a concentração da caminhada cultural, que começa às 9h em direção à Igreja do Rosário e São Benedito. O encerramento será marcado por uma tradicional feijoada ao meio-dia.
Inspirada em tradições afro-brasileiras de reverência aos espaços sagrados, a Lavagem das Escadarias da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito surgiu em Cuiabá com o objetivo de valorizar a ancestralidade afrodescendente, promover a cultura de paz e reconhecer a contribuição da população negra para a formação histórica da cidade.

Produtora cultural e uma das articuladoras da iniciativa, Lindisey Catarina de Sá explica que a celebração nasceu como um movimento de reconhecimento da história e da presença negra em Mato Grosso. “A Lavagem das Escadarias surgiu como um ato de valorização da memória afrodescendente, de promoção da cultura de paz e de reconhecimento da contribuição do povo negro para a formação da cidade”, afirma.
O reconhecimento da importância cultural do evento levou à sua inclusão no Calendário Oficial de Eventos de Cuiabá por meio da Lei Municipal nº 6.304, sancionada em 2018.
Uma igreja marcada pela história da população negra
A escolha da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito não é por acaso. Um dos mais antigos templos religiosos da capital, o local possui forte ligação histórica com a população negra que ajudou a construir Cuiabá desde o período colonial.
Segundo Lindisey, homens e mulheres negros, escravizados e libertos, participaram ativamente da construção da cidade e encontraram na devoção a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito um importante espaço de pertencimento, organização social e preservação cultural. “A devoção a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito tornou-se um importante espaço de resistência, pertencimento e organização social da população afrodescendente, preservando elementos da fé, da cultura e da ancestralidade africana”, destaca.

Essa relação histórica transformou a igreja em um dos principais símbolos da presença negra na formação social e cultural de Cuiabá.
Durante a cerimônia, diversos elementos carregam significados espirituais profundos para os participantes. A água de cheiro utilizada na lavagem simboliza purificação e bênçãos. As flores representam gratidão e oferenda. Os tambores evocam a ancestralidade e celebram a vida, enquanto as vestimentas brancas expressam paz, espiritualidade e renovação.

Para os povos de terreiro, a lavagem das escadarias representa um ritual de purificação e fortalecimento da fé. “A água simboliza limpeza espiritual, proteção e renovação das energias. É um momento de conexão entre o sagrado, a comunidade e os ancestrais, reafirmando valores de respeito, acolhimento e convivência entre diferentes expressões religiosas”, explica Lindisey.
Embora dialogue com elementos das religiões de matriz africana, a celebração também estabelece pontes com a devoção católica popular presente na Igreja do Rosário e São Benedito, tornando-se um espaço de encontro entre diferentes tradições.
Memória, identidade e resistência
Ao longo dos últimos dez anos, a Lavagem do Rosário consolidou-se como uma importante ferramenta de preservação da memória das comunidades afrodescendentes e quilombolas de Mato Grosso. A manifestação promove o encontro entre grupos culturais, lideranças religiosas, artistas e representantes de comunidades tradicionais, fortalecendo a transmissão dos conhecimentos ancestrais para as novas gerações.
Para Lindisey, a celebração também representa um ato de resistência cultural diante de séculos de invisibilização das manifestações afro-brasileiras. “Resistir significa manter vivas tradições que durante muito tempo foram discriminadas ou silenciadas. É valorizar a história da população negra, preservar manifestações culturais afro-brasileiras, combater o racismo e reafirmar que a contribuição do povo negro faz parte da história de Cuiabá”, afirma.

Ela destaca ainda a importância simbólica de ocupar um dos espaços históricos mais importantes da cidade. “Ocupar simbolicamente a Igreja do Rosário e São Benedito é um ato de reconhecimento histórico e de justiça social. É tornar visíveis histórias que muitas vezes foram esquecidas e fortalecer o sentimento de pertencimento das atuais e futuras gerações.”
Ao completar uma década, a Lavagem das Escadarias da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito reafirma seu papel como um dos principais marcos culturais e religiosos de Cuiabá. A celebração tornou-se um espaço de acolhimento, educação patrimonial, promoção da diversidade e valorização da ancestralidade afro-brasileira.
“Celebrar esses 10 anos é reconhecer o trabalho coletivo de todas as pessoas que contribuíram para manter viva essa manifestação. É também renovar o compromisso com a valorização da cultura afro-brasileira, o combate à intolerância religiosa e a construção de uma sociedade mais justa e plural”, conclui Lindisey.
Dez anos depois de sua criação, a Lavagem do Rosário continua transformando as escadarias da histórica igreja em um palco de fé, memória e resistência, reafirmando que a ancestralidade negra permanece viva e essencial para a identidade cultural de Cuiabá e de Mato Grosso.

