Natural do Pará e morador de Santa Carmem, Edson Jucá transforma tampinhas de garrafa em clubes de futebol e narra disputas que já passaram de milhões de visualizações.
Uma tarde chuvosa, quatro tampinhas encontradas em casa e uma lembrança de infância. Foi assim que nasceu a “corrida das tampinhas”, projeto criado pelo serralheiro Edson Jucá, de 33 anos, natural do Pará e morador de Santa Carmem (MT). O que começou sem planejamento, em frente à casa dele, hoje reúne clubes de futebol, seleções, campeonatos, previsões de jogos e milhões de visualizações nas redes sociais.
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Edson conta que já gravava vídeos antes, mas sem um formato definido. Publicava conteúdos de humor, música, rotina de trabalho e até composições próprias. A corrida das tampinhas surgiu de forma espontânea, quando a água da chuva começou a correr pelo meio-fio da rua onde mora.
Na primeira disputa, não havia clubes, escudos ou linha de chegada. As tampinhas seriam levadas pela água até travarem ou caírem na tubulação. Nenhuma caiu no esgoto. Todas ficaram presas no percurso, movimento que ele passou a chamar de “ancoramento”.
“Eu fiz um vídeo totalmente aleatório, sem planejar, sem pensar que fosse viralizar, e eu brincava que quem vencesse, quem escolhesse a tampinha vencedora, iria para o Maranhão comigo e aí ia passar o dia tirando coco, babaçu, comendo gongo frito com farinha”, explicou.
O vídeo viralizou no Kwai e chegou a cerca de 700 mil visualizações. Depois disso, Edson tentou repetir a ideia, mas o segundo vídeo não teve resultado imediato. Dias depois, ao abrir o TikTok, ele encontrou milhares de novos seguidores e viu que a publicação havia explodido.
“Quando abri meu TikTok, deparei-me com milhares de seguidores. O segundo vídeo chegou à marca de 7 milhões de visualizações. Foi daí que tudo começou”, contou.
A partir dos comentários, a corrida das tampinhas ganhou novo rumo. O público passou a pedir disputas com clubes de futebol, rivalidades, famosos, marcas, carros de Fórmula 1 e até corridas políticas. Edson fez uma enquete e decidiu manter o foco em clubes e seleções.
“Eu não gravo para mim. Sempre falo para a galera: não é o meu gosto, é o gosto da galera. Então, hoje, com o clube aí falando sobre os campeonatos, eu venho usando isso, venho fazendo minhas anotações sobre o que está dando certo esse ano para mim”, disse.
A primeira competição com times reuniu 70 clubes brasileiros, escolhidos entre os principais de cada estado. Mato Grosso foi representado por Cuiabá e Mixto. A primeira “Copa do Brasil das Tampinhas” teve o Coritiba como campeão. “Eu peguei clubes de todos os estados. Não deixei nenhum estado de fora”, lembrou.Play
Com o crescimento dos vídeos, as tampinhas também passaram por uma evolução. No início, Edson apenas retirava os adesivos originais das tampas e colava imagens dos clubes, mas a água danificava o material. Ele tentou usar isopor, verniz e outros recursos, até chegar ao modelo atual.
Hoje, as tampinhas são reforçadas com outra tampa encaixada por dentro, fita, adesivo e impermeabilizante transparente. O processo permite que uma mesma peça seja usada várias vezes.
“No início foi bem complicado. A água danificava. Hoje as tampinhas estão bem preparadas para serem usadas várias e várias vezes”, explicou.
A tampinha do Flamengo, clube do coração de Edson, é uma das que mais aparecem nos vídeos. “O Flamengo é o que mais corre, porque eu sou flamenguista. É também o que mais ajuda no engajamento”, contou.
As gravações começaram no chamado “circuito meio-fio”, em frente à casa dele. Mas, atualmente, a maior parte das corridas ocorre no “Circuito Noite e Dia”, localizado a cerca de um quilômetro da residência de Edson.
O nome veio da característica do percurso. Parte da corrida passa por um trecho escuro, embaixo de uma ponte, e depois segue para uma área aberta, com luz natural. “Ele é batizado Noite e Dia porque, em um momento, as tampinhas estão na parte bem escura. De uma hora para outra, elas caem no dia”, explicou.
Na narração, o circuito ganhou personalidade própria. “Eu até brinco que ele é cruel, ignorante, imprevisível, arrogante. Se vacilar, não vence”, disse Edson.
As corridas também passaram a funcionar como “previsões” de jogos reais. Edson grava disputas entre clubes ou seleções dias antes das partidas e publica os vídeos próximos aos confrontos. Segundo ele, em um levantamento feito com 100 vídeos, as tampinhas acertaram metade dos resultados.
“Quando meu Flamengo perde na tampinha, eu já fico naquela: meu Deus, será que vai acontecer no futebol? Porque eu gravo sempre um mês ou 15 dias antes do jogo e quando acontece um resultado que eu não esperava, já fico apreensivo”, brincou.
A produção virou trabalho de família. Edson conta que não grava sozinho. Em quase todos os vídeos, quem o ajuda é a filha mais velha, Mariana, de 10 anos, responsável por puxar a gradinha da largada e auxiliar no recolhimento das tampinhas.
“Noventa e nove por cento das vezes eu gravo com a minha filhota mais velha. Ela que auxilia na gravação”, contou.
A esposa também participa da produção, ajudando na montagem das tampinhas, na organização das tabelas e na conferência dos campeonatos. O cuidado é necessário porque algumas competições envolvem dezenas de clubes. “Eu sozinho não seria capaz de fazer isso. Tem todo esse processo”, afirmou.
A família também recolhe tampinhas nas ruas e em eventos da cidade. Segundo Edson, em uma única tarde da ExpoCarmem, eles chegaram a juntar mais de mil unidades.
Atualmente, ele trabalha em um projeto com cerca de 750 clubes brasileiros em atividade. Somando clubes e seleções, o acervo deve chegar a aproximadamente 800 tampinhas personalizadas.
Mesmo com vídeos assistidos por pessoas de várias partes do Brasil e até de outros países, Edson diz que o reconhecimento em Santa Carmem ainda está no começo. “Até esses dias eu poderia dizer que era zero conhecimento aqui na cidade. Hoje acho que já 1% da galera daqui conhece a gente”, disse.
Para ele, o sucesso da corrida das tampinhas está justamente na espontaneidade e na participação do público. “Eu comecei a perceber que ia dar certo pelos comentários da galera. Era o que elas queriam”, afirmou.
Fonte: Primeira Página
