“Divino: Sua Alma, Sua Lente” retrata a trajetória de Divino Tserewahú e destaca o papel do audiovisual na preservação da cultura dos povos originários
Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto
A trajetória de um dos mais importantes cineastas indígenas do Brasil, contada no documentário “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, dirigido por Cléa Torres e Gilson Costa, foi selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens do festival Mostra de Cinema e Vídeo de Cuiabá (Cinemato), que ocorre dos dias 29 de junho a 5 de julho de 2026.
O documentário vai além da trajetória de Divino Tserewahú ao destacar a potência do cinema indígena como ferramenta de valorização da memória, da cultura e dos saberes ancestrais. A obra evidencia a importância da produção audiovisual realizada pelos próprios povos originários, fortalecendo a identidade indígena e reafirmando sua resistência na preservação de histórias, tradições e modos de vida.

Fonte: Divulgação.
Produzido com apoio do Núcleo de Produção Digital (NPD) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus Araguaia, e financiado pela Lei Paulo Gustavo, o curta de 25 minutos acompanha a trajetória do cineasta Xavante da Terra Indígena Sangradouro, reconhecido nacional e internacionalmente por registrar, ao longo de mais de três décadas, aspectos fundamentais da cultura de seu povo.
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Por meio de arquivos históricos, fotografias e imagens produzidas ao longo de sua carreira, o documentário mostra como o audiovisual se transformou em uma ferramenta de memória para os Xavante. Rituais, histórias, conhecimentos tradicionais, lideranças e formas de viver que poderiam se perder com o tempo passaram a ser preservados pelas lentes de Divino.
Segundo a diretora e jornalista Cléa Torres, a importância da obra está justamente em mostrar como os povos indígenas transformaram uma tecnologia externa à sua realidade em um instrumento de fortalecimento cultural.
“Divino representa uma geração que se apropriou do cinema para contar suas próprias histórias. Ao longo de 35 anos, ele registrou rituais, transformações culturais, a língua e a memória do povo Xavante. Muitos desses registros documentam práticas que já não existem mais ou que foram transformadas pelo tempo. Seu trabalho se tornou um importante patrimônio para as futuras gerações”, afirma.
Para Cléa, o legado de Divino ultrapassa a produção audiovisual e se conecta diretamente à preservação da identidade indígena. Ela destaca que o cineasta ajudou a construir uma narrativa protagonizada pelos próprios povos originários, rompendo com décadas em que os indígenas eram retratados apenas pelo olhar de pesquisadores, cineastas ou jornalistas não indígenas.

“O Divino não filmou apenas sua comunidade. Ele ajudou a construir uma forma própria de fazer cinema, baseada na realidade, na visão de mundo e nos valores do povo Xavante. Sua trajetória mostra como os indígenas passaram a ocupar o lugar de quem conta a própria história”, destaca.
Ao longo do documentário, a câmera acompanha não apenas a carreira do cineasta, mas também a importância da oralidade, da ancestralidade e da memória coletiva para os povos indígenas. Elementos centrais da cultura Xavante encontram no cinema uma forma de atravessar gerações e permanecer vivos.
Para o diretor Gilson Costa, professor da UFMT e coordenador do Núcleo de Produção Digital, o cinema indígena desempenha um papel fundamental na preservação de conhecimentos ancestrais e na valorização das diferentes formas de compreender o mundo.
“O audiovisual se tornou uma ferramenta poderosa para registrar histórias, saberes e modos de vida. No caso dos povos indígenas, ele fortalece a memória coletiva e permite que essas narrativas sejam contadas a partir de uma perspectiva própria, atravessada pela ancestralidade, pela cosmologia e pelo pertencimento comunitário”, explica.

Gilson ressalta que a obra também evidencia a contribuição dos cineastas indígenas para a construção de novos olhares sobre o Brasil. “Os filmes produzidos por realizadores indígenas apresentam formas diferentes de narrar a realidade. Eles ajudam a ampliar nossa compreensão sobre o país e contribuem para uma visão mais diversa e plural da sociedade brasileira”, afirma.
A relevância da produção já vem sendo reconhecida em importantes eventos do audiovisual nacional. Recentemente, o documentário recebeu Menção Honrosa na Competição Brasileira de Curtas-Metragens do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, considerado um dos mais importantes da América Latina.
Agora, a seleção para o Cinemato amplia ainda mais o alcance da obra. A edição de 2026 do festival recebeu 598 inscrições de todo o país, selecionando apenas 15 curtas e sete longas para a mostra competitiva. A exibição de “Divino: Sua Alma, Sua Lente” está marcada para o dia 1º de julho.
Para Gilson, a seleção do curta também simboliza um momento importante para o audiovisual produzido no Araguaia. Segundo ele, a circulação do documentário em festivais nacionais reforça que as histórias contadas a partir do interior de Mato Grosso possuem relevância cultural e artística.
“O Araguaia tem uma memória muito rica e histórias que precisam ser contadas. A presença do filme nesses espaços demonstra que a produção audiovisual da região vem amadurecendo e conquistando reconhecimento. É uma oportunidade de mostrar ao Brasil narrativas que nascem dos nossos territórios e das nossas comunidades”, destaca.
Para o próprio Divino Tserewahú, a participação em festivais representa uma oportunidade de aproximar diferentes públicos da realidade dos povos indígenas.
“É uma forma de levar a cultura indígena para quem não conhece a nossa realidade. Não é apenas sobre a minha trajetória, mas sobre o povo Xavante como um todo”, afirma.
Divino Tserewahú
Confira o trailer do documentário:
