Documento lançado durante o 23º Cinemato critica critérios de edital federal, pede descentralização dos investimentos e reforça o papel dos festivais na formação do cinema brasileiro
Da Redação
O encerramento do 23º Festival de Cinema de Cuiabá (Cinemato) foi marcado pelo lançamento da Carta de Cuiabá, documento que reúne representantes do setor audiovisual em defesa de mudanças na política nacional de fomento aos festivais de cinema. O texto critica os critérios adotados no edital federal de apoio a eventos audiovisuais e reivindica maior descentralização dos investimentos públicos.
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Elaborada por produtores, realizadores, curadores e organizadores de festivais, a carta surgiu após a desclassificação do Cinemato e de outros eventos tradicionais no processo seletivo promovido pelo Ministério da Cultura (MinC). Para os signatários, a discussão ultrapassa o resultado de um único edital e evidencia a necessidade de rever os mecanismos de avaliação e distribuição de recursos destinados ao audiovisual brasileiro.
O documento destaca que festivais de cinema desempenham papel estratégico na formação de público, na circulação de produções nacionais, na qualificação de profissionais e no fortalecimento das economias criativas regionais. Também defende que esses eventos são espaços permanentes de democratização do acesso ao cinema, incentivo à produção independente e valorização das identidades culturais locais.
Outro ponto levantado pela Carta de Cuiabá é a concentração histórica dos investimentos nas regiões Sudeste e Sul. Os articuladores afirmam que fortalecer festivais realizados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste é essencial para ampliar a diversidade de narrativas e garantir oportunidades para novos realizadores em diferentes partes do país.
O texto também questiona a ausência de critérios que reconheçam a trajetória e o impacto social de festivais consolidados ao longo de décadas. Segundo os organizadores, eventos responsáveis pela formação de gerações de profissionais e pela difusão do cinema brasileiro ficaram de fora do financiamento federal, apesar do histórico de atuação.
A repercussão da carta ultrapassou Mato Grosso e recebeu manifestações de apoio de representantes de outros festivais. Entre eles está a Goiânia Mostra Curtas, cuja organização informou ter enfrentado situação semelhante ao ser desclassificada do mesmo edital, mesmo após mais de duas décadas de realização ininterrupta e de atividades voltadas à formação e difusão do audiovisual.
Leia a carta na íntegra e assine-a.
Carta de Cuiabá – 23º Festival de Cinema de Cuiabá – CINEMATO 2026
Ao Ministério da Cultura,
À Secretaria do Audiovisual,
Aos Festivais de Cinema do Brasil,
À Imprensa e à Sociedade.
Nós, realizadores do Festival de Cinema de Cuiabá, artistas, cineastas, produtores culturais e público presente nesta edição de encerramento, vimos a público manifestar nossa posição e registrar este protesto.
Em primeiro lugar, saudamos a gestão do Ministério da Cultura, parabenizando esta administração pela ampliação dos recursos da cultura e pela política de reconstrução do setor, que tem se dedicado a democratizar o acesso aos mecanismos de fomento em todo o território nacional.
No entanto, vimos a público manifestar nossa profunda insatisfação e indignação com os critérios e o resultado do Edital de Chamamento Público MinC nº 7, de 30 de outubro de 2025 – Programa Rouanet Festivais Audiovisuais.
O Festival de Cinema de Cuiabá inscreveu um projeto de atividades extensivas, com programação a ser realizada no ano de 2026, abrangendo não apenas a capital, mas cidades polos de Mato Grosso. O projeto, devidamente inscrito e fundamentado, foi HABILITADO – ou seja, a documentação foi considerada correta e apta a participar da seleção.
Fomos surpreendidos com um resultado negativo, cujo parecer apontou a desclassificação com base no artigo 3.3 do edital, que classifica o festival no módulo de tempo de existência, ou seja, não possuiria o tempo mínimo exigido de existência ou número de edições.
Tal justificativa é não apenas frágil, mas contradiz o reconhecimento oficial do estado de Mato Grosso, que já consagrou o Festival de Cinema de Cuiabá como patrimônio cultural por meio da Lei nº 13.464. O próprio projeto que originou essa lei já registrava, à época, os 33 anos de trajetória do festival, fato que demonstra a inconsistência do parecer que nos desclassificou.
Diante disso, protocolamos recurso administrativo, demonstrando a inconsistência do parecer e a nossa regularidade, amparados inclusive pela legislação estadual que atesta nossa existência e relevância. No entanto, para nossa decepção, a comissão manteve a desclassificação, ignorando os fatos, os documentos apresentados e o reconhecimento legal conquistado perante o estado de Mato Grosso.
Este episódio revela uma questão central: não basta que o governo federal demonstre interesse em desenvolver a cultura e democratizar seu acesso. É fundamental que haja investimento qualificado nos processos seletivos. Os editais têm se consolidado como uma das principais ferramentas de fomento, e exigem que os projetos sejam avaliados, no mínimo, por pessoas devidamente remuneradas, preparadas e com competência técnica para analisar cada proposta com o cuidado que ela merece. Caso contrário, resultados equivocados e decisões arbitrárias maculam a credibilidade do processo e prejudicam projetos que, de fato, atendem às diretrizes do programa.
Neste momento, reafirmamos a importância do Festival de Cinema de Cuiabá para o estado de Mato Grosso e para a região Centro-Oeste e pra o País. Somos um festival que ao longo de sua trajetória construiu um histórico de formação de público, difusão do audiovisual brasileiro e valorização das identidades regionais, exatamente os objetivos declarados pelo próprio programa Rouanet Festivais. Mais do que isso: somos patrimônio cultural do estado de Mato Grosso, reconhecidos por lei, e não podemos ser tratados como um festival sem história ou sem lastro.
Assim, deixamos registrado o nosso protesto:
1. Contra a desclassificação arbitrária do Festival de Cinema de Cuiabá no Edital nº 7/2025, que desconsidera nossa trajetória de 33 anos e o reconhecimento legal conquistado;
2. Pela revisão dos critérios de avaliação, exigindo transparência, formação técnica dos avaliadores e respeito à legislação que reconhece nossa existência e relevância cultural;
3. Pela garantia de que o fomento público chegue de fato aos festivais consolidados, especialmente aqueles localizados nas regiões com cotas territoriais, como o Centro-Oeste.
Que esta Carta de Cuiabá ecoe como as anteriores: seja lida pela imprensa, divulgada em todo o Brasil e sirva de alerta para que a política cultural brasileira continue avançando, mas com justiça, competência e respeito àqueles que constroem a cultura nacional todos os dias.
Assinam esta carta os realizadores, curadores, equipe, parceiros e público presente no encerramento do Festival, além de todos os que, pela internet, se somam a este manifesto pela democratização do acesso aos recursos culturais e pela valorização dos festivais de cinema do Brasil.
