Com apenas 36% de leitores, estados fora do eixo buscam fortalecer sua produção literária

Autores investem em novos gêneros e na autopublicação, enquanto leitores defendem mais eventos e políticas de incentivo para aproximar livros e leitores

Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto

Enquanto o Brasil ganhou cerca de 3 milhões de novos leitores entre 2024 e 2025, segundo a pesquisa Panorama do Consumo de Livros, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), a literatura produzida em Mato Grosso ainda enfrenta obstáculos para conquistar espaço entre o público. A combinação entre baixo índice de leitura no estado, escassez de eventos literários e pouca divulgação faz com que muitos autores permaneçam desconhecidos, mesmo diante do crescimento de novas formas de publicação.

A realidade local também aparece em números. De acordo com a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, apenas 36% da população mato-grossense é considerada leitora, o menor percentual da região Centro-Oeste e o segundo pior índice do país, atrás apenas do Rio Grande do Norte.

Acesse o grupo do WhatsApp do Mutirum e fique por dentro das notícias culturais!   

Para a jornalista Aline Nunes, que pesquisou literatura no Brasil e no Mato Grosso e realizou a revista Capítulo 17 sobre o tema, embora a produção literária estadual esteja em expansão, ela ainda encontra dificuldades para alcançar o público.

“A literatura em Mato Grosso está crescendo, mas ainda fica muito escondida, principalmente porque não temos tantos eventos sendo realizados no estado onde esses livros possam ser expostos”, afirma.

Segundo ela, existe uma percepção equivocada de que a literatura mato-grossense se resume à poesia. “Temos muitos livros de poesia, mas também existem obras de fantasia, não ficção e diversos outros gêneros. O problema é que muitas vezes as pessoas sequer ficam sabendo que esses livros existem.”

Capa da Revista Capítulo 17, idealizada por Aline Nunes.

Aline também observa que esse cenário acompanha uma tendência nacional de concentração do mercado editorial.

“Quando olhamos as listas de livros mais vendidos, vemos principalmente autores estrangeiros, especialmente norte-americanos e ingleses. Entre os brasileiros, a maior parte dos destaques ainda vem do eixo Sudeste.”

Atualmente, entre os dez livros mais vendidos de ficção, apenas três autores são brasileiros, Raphael Montes, com Jantar Secreto; Socorro Acioli, autora de A Cabeça do Santo; e Clarice Lispector, com A Hora da Estrela. A lista é liderada por “Educação da Tristeza”, do escritor português Valter Hugo Mãe, seguida pelos mangás “O cara que estou a fim não é um cara?!”, da japonesa Sumiko Arai.

Ela acredita que o baixo número de leitores no estado também pode contribuir para a falta de representatividade de autores mato-grossenses entre os mais lidos. “Isso pode influenciar porque há menos leitores e, consequentemente, menos valorização da literatura regional.”

Outro fator apontado por Aline é a ausência de grandes eventos dedicados ao livro.

“Mato Grosso do Sul já possui uma Bienal do Livro, que reúne autores e movimenta o mercado literário. Aqui ainda estamos muito restritos a pequenas feiras. Essa diferença interfere diretamente na visibilidade das obras produzidas no estado.”

Publicar ficou mais fácil, mas chegar ao leitor continua sendo o desafio

Se antes publicar um livro era uma das maiores dificuldades para escritores independentes, hoje as plataformas digitais ampliaram as possibilidades. Ferramentas como Wattpad, Kindle Direct Publishing (KDP), da Amazon, e outras modalidades de autopublicação democratizaram o acesso ao mercado editorial.

Segundo a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, o mercado editorial do país teve queda de 5,2% em 2016 com relação ao ano anterior. Somado a 2015, o valor chega a 17%. Em contrapartida, neste ano, em apenas 24 horas, 426 livros foram publicados no Clube de Autores, uma plataforma que permite publicações independentes com projeto editorial completo, contendo diagramação, revisão, capa, ISBN, distribuição.

Mesmo com o crescimento das plataformas de autopublicação, Aline acredita que o principal obstáculo mudou.

“Hoje publicar já não é a parte mais difícil. Existem diversas formas de lançar um livro, seja digitalmente ou por editoras independentes. O grande desafio é fazer com que essas obras cheguem aos leitores. Se ninguém conhece o livro, ninguém vai ler.”

Ela avalia que essa dificuldade pode desestimular novos escritores. “A divulgação continua sendo um dos maiores problemas. Sem leitores, muitos autores acabam perdendo o incentivo para continuar produzindo.”

A estudante universitária Kézia Vitória Silva Ferreira, de 22 anos, começou a cultivar o hábito da leitura aos sete anos, depois de ganhar de presente o clássico Meu Pé de Laranja Lima. Hoje, seu interesse vai além das histórias.

“Gosto de conhecer a trajetória dos autores e entender como aspectos da vida deles influenciaram suas obras. Isso torna a leitura muito mais rica.”

Embora atualmente leia principalmente autores japoneses, ela reconhece que conhece pouco da produção regional do estado onde mora, Rondônia.

“Existe uma lacuna muito grande na produção literária local. Mesmo sendo uma leitora que procura novos títulos, dificilmente encontro autores da minha região com facilidade.”

Os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostram um recuo significativo no número de leitores da Região Norte. Em cinco anos, a parcela da população que mantinha o hábito da leitura passou de 63% para 48%, evidenciando uma queda de 15 pontos percentuais entre 2019 e 2024.

Para ela, o problema não está apenas na ausência de escritores, mas na pouca circulação das obras. “A produção existe, só que ela circula muito menos do que a de autores do Sul e Sudeste. Faltam editoras, eventos literários, políticas de incentivo e divulgação.”

Kézia também destaca que escritoras do norte do país enfrentam obstáculos ainda maiores.

“Além das dificuldades do mercado editorial, muitas mulheres ainda precisam provar a relevância das próprias histórias. Quando essas narrativas vêm do Norte ou do Centro-Oeste, elas enfrentam uma dupla barreira: a de gênero e a de região.”

Apesar de serem maioria entre os leitores brasileiros, as mulheres ainda enfrentam desigualdade no mercado literário. Segundo levantamento do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (UnB), elas representaram menos de 30% dos autores publicados pelas principais editoras do país entre 1965 e 2014.

O estudo também aponta que apenas três mulheres aparecem entre os 14 autores mais lembrados pelos brasileiros, sendo elas Clarice Lispector, Cecília Meireles e Zíbia Gasparetto, evidenciando a persistente sub-representação feminina no cenário literário nacional.

Ao mesmo tempo, Kézia enxerga nas plataformas digitais uma oportunidade de transformação.

“Com a internet, a autopublicação e até espaços como as fanfics, muitas escritoras conseguem formar comunidades de leitores antes mesmo de chegar ao mercado tradicional. Ainda assim, o reconhecimento institucional e os investimentos continuam sendo limitados.”

Incentivo à leitura

Nos últimos meses, o governo federal também anunciou iniciativas voltadas ao fortalecimento da leitura. Entre elas está o novo Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) 2026-2036, que prevê ações para ampliar o acesso aos livros, fortalecer bibliotecas e incentivar a formação de leitores em todo o país. Outra novidade é o aplicativo MEC Livros, que já reúne mais de 500 mil usuários e oferece empréstimos gratuitos de livros digitais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Precisa de ajuda?