Artigo da coreógrafa Bruna Terra aborda como a iniciativa une pesquisa em dança, preservação de saberes tradicionais e intercâmbio cultural com mulheres A’uwẽ Uptabi.
Por Bruna Terra
Dançarina e Coreógrafa
Em Barra do Garças no cruzamento entre a pesquisa em dança, e a salvaguarda de saberes tradicionais e a urgência da visibilidade originária, o projeto Entre Povos e Ritmos consolida-se como um marco potente da cena cultural e da pesquisa corporificada no Centro – Oeste
Idealizado e coordenado pela coreógrafa e proponente Bruna Terra, o projeto nasce, como um campo de investigação cartográfica do movimento. Sob a perspectiva de que o corpo é o primeiro arquivo da humanidade, a iniciativa propõe um mergulho profundo nas poéticas e políticas das danças matrizes, estabelecendo pontes éticas entre a criação contemporânea e o patrimônio imaterial.
Acesse o grupo do WhatsApp do Mutirum e fique por dentro das notícias culturais!
A Guardiã das danças Xavante Femininas
O ponto de virada epistêmico da iniciativa reside no encontro com a sabedoria do povo A’uwẽ Uptabi. A presença da oficineira Dalize Tsanidza, reconhecida como guardiã dos saberes femininos da dança das mulheres Xavante, redesenha os contornos do que entendemos por formação em dança.
Tsanidza conduz os participantes para além do gesto técnico: sua oficina é uma partilha de cosmologia. Nas danças femininas Xavante, o movimento dos pés e a vibração dos cantos não são ornamentais; são atos de sustentação do mundo, ritos de cura e afirmação da memória de um povo que resiste. A transmissão oral e corpórea liderada por Dalize reposiciona a mulher indígena como detentora central do conhecimento científico e espiritual da terra, descolonizando o ensino da dança.

A beleza maior da obra esteve na sua própria gênese: a coreografia não foi imposta de fora para dentro, mas criada no coração do intercâmbio durante as oficinas. Criada em conjunto por Bruna Carvalho, Dalize Tsanidza e suas irmãs, a cena nasceu do afeto, da convivência e da escuta atenta. Todas as mulheres Xavante participantes das oficinas integraram esse processo criativo, onde cada passo foi descoberto, experimentado e construído a muitas mãos e muitos pés. A dança, assim, emergiu como um território coletivo de partilha, onde o limite entre ensinar e aprender se dissolveu completamente na poética do fazer junto.
A Granularidade de um Projeto Histórico: Três Pilares de Potência
Como pesquisadora da linguagem corporal, destacamos três eixos que elevam o Entre Povos e Ritmos ao patamar de obra de relevante interesse social e acadêmico:
1. Descolonização das Metodologias do Corpo: O projeto recusa a hegemonia eurocêntrica da dança ao colocar a corporalidade Xavante em nível de igualdade com as pesquisas acadêmicas em artes cênicas, promovendo uma ecologia de saberes.
2. Salvaguarda do Patrimônio Imaterial: Em um momento de constante ameaça aos territórios e culturas indígenas, registrar, vivenciar e difundir a dança das mulheres A’uwẽ Uptabi é uma ação concreta de preservação da memória viva nacional.
3. Ponte Intercultural e Alteridade: A proposição de Bruna Terra incide encontro, o projeto constrói uma ética da escuta, onde o público urbanizado é convidado a despir-se de seus vícios motores para reaprender a pisar o chão.

Ao observar a trajetória registrada no perfil do projeto, percebe-se que cada publicação, oficina e ensaio é um manifesto visual. O Entre Povos e Ritmos não apenas documenta a dança; ele convoca o Brasil a reconhecer na pulsão do corpo feminino originário a força motriz que sustenta a nossa própria identidade.
