Gravação realizada em programa de rádio no ano de 1952, quatro anos antes da morte do arcebispo, permite conhecer o timbre, a emoção e a oratória de uma das personalidades mais conhecidas de Mato Grosso.
Mais de sete décadas após a morte, a voz de uma das personalidades mais importantes da história de Mato Grosso pode ser ouvida novamente após um morador de Cuiabá comprar em leilão um antigo disco de vinil contendo gravação do arcebispo de Cuiabá, Dom Francisco de Aquino Corrêa, em 1952, na Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro.
O achado foi adquirido pelo memorialista e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT), Francisco das Chagas Rocha, que comprou o disco há cerca de três meses em um site de leilões e nesta semana divulgou o conteúdo em sua rede social no perfil Cuiabá de Antigamente.
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Nascido em 2 de abril de 1885, Dom Francisco de Aquino Corrêa morreu em 22 de março de 1956. Isso significa que a gravação foi realizada apenas quatro anos antes de sua morte, quando ele estava nos últimos anos de vida.
Considerado o bispo mais jovem do mundo por ter alcançado o episcopado muito cedo, Dom Aquino foi presidente de Mato Grosso entre os anos de 1918 e 1922, cargo equivalente ao de governador na época. Ele também criou o hino de Mato Grosso e o Brasão de Armas do Estado.
O arcebispo viveu por 34 anos no Seminário Nossa Senhora da Conceição, em Cuiabá espaço que hoje abriga o Museu de Arte Sacra de Mato Grosso, onde estão guardados seus pertences pessoais. Foi fundador também do IHGMT, do qual se tornou presidente perpétuo e foi o primeiro imortal mato-grossense a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).
Datada de maio de 1952, a gravação de mais de 8 minutos mostra o sacerdote recitando uma oração de sua autoria, a “Medianeira de todas as Graças”. O registro foi feito no programa Hora Azul, atração transmitida no fim da tarde, e reunia repertórios líricos, poesias e músicas românticas da época.
Na gravação, Dom Aquino destaca a importância do mês de maio para os católicos, tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora, e fala sobre o dogma da Assunção de Maria, proclamado pelo papa Pio XII em 1º de novembro de 1950.
Com emoção, o religioso também faz uma exortação ao povo brasileiro para que sejam perpetuadas, em monumentos nas capitais do país, imagens de Nossa Senhora.
Uma voz dos últimos anos de vida
Para Francisco das Chagas Rocha, o material encontrado em um site de leilões possui valor além da dimensão religiosa. Segundo ele, também ficam registrados elementos de sua oratória, como a maneira de construir a fala e se dirigir ao público, além da linguagem utilizada na época.
Além de arcebispo de Cuiabá e presidente do Estado de Mato Grosso, o sacerdote também era poeta, escritor e orador. Para o memorialista, recuperar a gravação significa permitir que uma das principais vozes da história mato-grossense volte a falar diretamente às futuras gerações.
Memória
Não se trata apenas de recuperar uma antiga gravação: trata-se de restituir à história a presença viva de uma das personalidades mais importantes da trajetória cultural, religiosa, intelectual e política do Estado. É como abrir uma janela para o passado e permitir que, por alguns minutos, um dos maiores nomes da história de Mato Grosso volte a ocupar o espaço público com sua própria voz.
Francisco das Chagas Rocha, memorialista e membro do IHGMT
Convite inesperado no Rio de Janeiro
Em maio de 1952, Dom Aquino estava no Rio de Janeiro tratando dos preparativos para o 1º Congresso Eucarístico de Mato Grosso, realizado em junho daquele ano. Foi durante essa passagem pela então capital federal que recebeu o convite para participar da programação da Rádio Mayrink Veiga, que funcionou de 1926 a 1965 e foi um dos veículos importantes da história do rádio brasileiro.

A presença de Dom Aquino em uma emissora de alcance nacional também revela a dimensão de sua atuação naquele período.
Apesar da distância geográfica de Mato Grosso em relação aos grandes centros brasileiros, o estado era representado no rádio nacional pela voz de um de seus principais intelectuais e líderes religiosos.
Registro considerado único
De acordo com as informações do memorialista, não existe outro registro sonoro conhecido da voz de Dom Aquino Corrêa. Por isso, o material ganha importância especial para pesquisadores da história de Mato Grosso e também da radiodifusão brasileira.
O áudio permite analisar não apenas o que Dom Aquino dizia, mas também como ele se comunicava. A gravação preserva características como segurança, solenidade, espontaneidade e a forma como o religioso se relacionava com o público por meio do rádio.

Na gravação, Dom Aquino recita “Medianeira de todas as Graças”, oração de sua autoria dedicada à Virgem Maria. A devoção a Nossa Senhora Medianeira no Brasil havia sido iniciada em 1928 pelo jesuíta Frater Inácio Valle, junto aos seminaristas menores do Seminário São José.
O registro feito décadas depois ajuda a preservar também parte dessa história religiosa, além de revelar a forma como Dom Aquino expressava sua fé por meio da palavra.
Um documento para as próximas gerações
Segundo Francisco, a autenticidade da gravação encontra respaldo na existência do LP original, que registra a participação de Dom Aquino e funciona como fonte material para a procedência do áudio. Além da identificação presente no disco, pessoas que conheceram pessoalmente o arcebispo também reconheceram sua voz, de acordo com Francisco Chagas.
Autenticidade
É possível afirmar, com forte respaldo histórico, que a voz presente na gravação é de Dom Francisco de Aquino Corrêa. Além da identificação existente no LP original, que registra sua participação, há também o testemunho de pessoas que o conheceram pessoalmente e reconheceram sua voz. A existência do suporte original, associada à identificação documental e às confirmações testemunhais, constitui um conjunto consistente de evidências para atestar a autenticidade do registro sonoro.
Francisco das Chagas Rocha, memorialista e membro do IHGMT
O memorialista ainda cita que a recomendação para preservar o material é mantê-lo em local seguro e utilizar o formato digital para acesso e reprodução, reduzindo o manuseio do exemplar físico.
A digitalização também permite que a gravação permaneça disponível para futuras gerações de pesquisadores interessados na história religiosa, cultural, literária e radiofônica de Mato Grosso e do Brasil.

Casa onde Arcebispo viveu virou museu em MT
Construída pelo patriarca da família Murtinho, em 1842, para ser sede da grande Fazenda Bela Vista, a Casa Dom Aquino é conhecida por alguns historiadores como a ‘Casa Predestinada’, pois nela nasceram duas personalidades ilustres de Mato Grosso: Joaquim Duarte Murtinho e Dom Aquino Correa.
Atualmente instalado na Casa Dom Aquino, o Museu de História Natural de Mato Grosso foi inaugurado em 7 de dezembro de 2006 e possui exposição permanente de arqueologia e paleontologia.

A casa em estilo colonial possui traçado arquitetônico em formato de “U” com 12 cômodos e fachada voltada para o rio Cuiabá, que se encontra a poucos metros de distância. Essa característica de fachada de frente para o rio marca um momento da história da cidade de Cuiabá do século XIX, quando a cidade dependia do rio tanto como fonte de pescado como forma de transporte.
A exposição paleontológica apresenta fósseis de animais da região, organizados cronologicamente, representando a evolução biológica durante as eras geológicas. Dentre os fósseis, estão o do tatu e a Preguiça gigante, dinossauros, e animais marinhos do período que Chapada dos Guimarães foi mar.

Dos 12 cômodos da casa, quatro são utilizados para as exposições permanentes e o restante é distribuído em salas para realização de oficinas, escritórios e acervos.
Possui anexo com cozinha, banheiros e área coberta para a realização de oficinas, e uma área verde com árvores centenárias, orquidário e viveiro de mudas silvestres.
Fonte: Primeira Página
