Marca BioBarro une cerâmica artesanal e biojoias inspiradas na biodiversidade do Araguaia, transformando saberes tradicionais em geração de renda, preservação cultural e desenvolvimento sustentável
Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto
A combinação entre sustentabilidade, artesanato e economia criativa tem impulsionado novos negócios em Mato Grosso. No Vale do Araguaia, a marca BioBarro une a cerâmica artesanal e biojoias produzidas com sementes do Cerrado para transformar elementos da natureza em peças que valorizam a identidade cultural da região e ampliam as oportunidades de geração de renda.
A proposta dialoga com um cenário nacional em que a economia criativa continua em expansão. Segundo levantamento do Observatório Itaú Cultural, com base na PNAD Contínua do IBGE, o número de trabalhadores da economia criativa em Mato Grosso cresceu 29,6% entre 2012 e 2025, passando de 1,46 milhão para 1,89 milhão de profissionais.
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Esse setor engloba atividades ligadas à cultura, ao artesanato, ao design, ao audiovisual, à música, à moda e à inovação, tendo a criatividade como principal ativo econômico. Foi justamente nesse universo que a artesã ceramista Sônia Aparecida das Chagas, de 57 anos, encontrou uma nova profissão.
Presidente do Instituto Varanda e produtora cultural, ela vive há mais de 25 anos no Vale do Araguaia, onde construiu sua trajetória na cultura. Idealizadora do Luau da Soninha, evento que neste ano completa 16 anos de realização, Sônia afirma que foi a cerâmica que transformou definitivamente sua vida.
“O barro chegou à minha vida em um momento de transformação pessoal. Modelar a argila foi uma terapia, um reencontro comigo mesma. Aos poucos, percebi que aquilo que me fazia bem também encantava outras pessoas. O que começou como uma forma de cura emocional tornou-se uma profissão, gerando renda e me permitindo viver daquilo que amo fazer. Hoje, além de transformar barro em arte, ajudo outras pessoas a descobrirem esse mesmo caminho.”

Foto: Arquivo Pessoal.
Segundo ela, a decisão de viver da cerâmica aconteceu de forma natural. As peças começaram a despertar interesse das pessoas em volta, serem encomendadas e logo Sônia estava expondo-as em feiras e exposições.
“Cada reconhecimento me mostrou que era possível viver da arte. Quando comecei a representar Goiás e depois Mato Grosso em grandes eventos nacionais, tive certeza de que o artesanato poderia ser minha profissão e também minha missão.”
As biojoias são acessórios produzidos com matérias-primas naturais e renováveis, como sementes, fibras, madeiras, argila, folhas e até couro de peixe, coletados de forma sustentável. Inspiradas em práticas ancestrais dos povos indígenas, elas ganharam força nas últimas décadas com o crescimento da moda sustentável e da bioeconomia, agregando valor à biodiversidade brasileira e ao trabalho de comunidades tradicionais.
Na BioBarro, esse conceito ganhou identidade própria a partir da parceria entre Sônia e a artesã Adriana Meotti, que já desenvolvia um trabalho com sementes do Cerrado.
“A Adriana já desenvolvia um trabalho incrível com biojoias feitas com sementes do Cerrado. Quando nos conhecemos, percebemos que nossas artes conversavam naturalmente. O barro representava a terra; as sementes, a vida. Depois nasceu a parceria dentro da BioBarro, unindo essas duas linguagens em uma única proposta de valorização da natureza e da cultura regional.”

Foto: Arquivo Pessoal.
Segundo Sônia, a proposta da marca vai além da produção de acessórios, envolvendo diferentes formas de artesanato como o macramê.
“O projeto nasceu unindo sementes e argila, mas nossa intenção é que a BioBarro reúna vários artistas e técnicas. Já desenvolvemos trabalhos com macramê e queremos seguir construindo uma marca colaborativa, em que diferentes saberes artesanais possam dialogar.”
Cada coleção nasce de uma pesquisa sobre os elementos naturais e culturais do Vale do Araguaia. Isso envolve pesquisa de sementes, folhas e texturas.
“Tudo começa pela observação da natureza. Pesquisamos sementes, folhas, texturas e histórias da nossa região. Eu transformo esses elementos em cerâmica e a Adriana cria as biojoias. Depois unimos as peças, buscando equilíbrio entre forma, cor e significado. Cada coleção nasce de um processo de troca, respeito e criação compartilhada.”
A proposta da BioBarro também dialoga com os desafios ambientais enfrentados por Mato Grosso. Dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, mostram que Mato Grosso e Pará lideram as emissões brasileiras relacionadas às mudanças no uso da terra e ao desmatamento. Juntos com Maranhão, Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, esses estados respondem por mais da metade das emissões brutas do país.
Nesse contexto, pesquisadores apontam a bioeconomia e a economia criativa como alternativas capazes de gerar emprego e renda utilizando a biodiversidade de forma sustentável, agregando valor aos recursos naturais sem ampliar a pressão sobre os ecossistemas.
Para Sônia, o artesanato ocupa exatamente esse espaço. Diferente de ser apenas um hobby, o artesanato se torna uma profissão, porque requere estudo e profissionalização, além da sensibilidade e dedicação.
“Muitas pessoas ainda enxergam o artesanato apenas como um hobby, mas cada peça exige estudo, pesquisa, técnica, sensibilidade e muitas horas de trabalho. Existe planejamento, escolha da matéria-prima, modelagem, secagem, queima, acabamento e, principalmente, muita dedicação. O artesanato é arte, cultura, patrimônio e também uma importante atividade econômica.”
Ela destaca que o trabalho artesanal também cumpre um papel importante na preservação da memória regional.
“Cada peça guarda referências do lugar onde foi criada. Quando usamos elementos do Araguaia e do Cerrado, estamos preservando nossa memória cultural e mostrando às novas gerações a riqueza que existe no nosso território.”

Foto: Arquivo Pessoal.
O crescimento da BioBarro ganhou novo impulso após a aprovação no edital MT Criativo, da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Segundo Sônia, o recurso permitiu investir na estrutura do ateliê, ampliar a produção e desenvolver novas coleções.
“Essa conquista representa reconhecimento e fortalecimento do nosso trabalho. O edital permitiu investir em equipamentos, melhorar nossa estrutura de produção, ampliar a qualidade das peças e desenvolver novas coleções. Também abriu portas para novas exposições e fortaleceu a BioBarro como um projeto que une economia criativa, sustentabilidade e valorização cultural.”
O principal investimento foi a compra de um forno próprio para a queima da cerâmica. Antes, Sônia precisava levar as peças para serem queimadas em outro ateliê, o que aumentava o custo de produção e, durante o transporte, podia até mesmo causar perdas, com peças quebrando antes da queima.
“Com o forno instalado no nosso espaço teremos autonomia para realizar todo o processo com mais segurança, qualidade e liberdade para criar. Isso vai beneficiar tanto a BioBarro quanto o meu trabalho como ceramista.”
A BioBarro já levou sua produção para eventos como a CasaCor Goiás, Fargo Goiás, Salão do Artesanato de Brasília e Salão do Artesanato de São Paulo. Ainda neste ano, a marca também participará da Fenacce, no Ceará, além de eventos no Rio de Janeiro.

Foto: Arquivo Pessoal.
Para Sônia, essa trajetória demonstra que o interior de Mato Grosso possui artistas capazes de competir em qualquer espaço quando encontram oportunidades.
“A trajetória da BioBarro mostra que talento, dedicação e identidade cultural podem levar o artesanato do interior para grandes vitrines nacionais. Nascemos às margens do Rio Araguaia, inspirados pela riqueza do Cerrado e da nossa cultura regional, e hoje já participamos de importantes eventos pelo país. Isso demonstra que os artistas e artesãos do interior de Mato Grosso têm um enorme potencial. Quando recebem incentivo e políticas públicas que fortalecem a economia criativa, conseguem representar seu território com orgulho, gerar renda e mostrar ao Brasil a riqueza cultural produzida no Vale do Araguaia.”

Foto: Arquivo Pessoal.
