A alegria do siriri na Turquia

Lorenzo Falcão*

Domingo passado (12/07) foi dia de bater ponto no Teatro da UFMT. Fui conferir o espetáculo que o Flor Ribeirinha leva pra Istambul, na Turquia, onde o grupo cuiabano representa o Brasil, no 27º Campeonato Mundial de Folclore.

A comitiva da nossa cultura popular, que goza de visibilidade e prestígio internacional, com várias premiações planetárias, será composta por cerca de 80 artistas. Embarca para a Turquia no dia 20 próximo. O espetáculo reúne manifestações tradicionais brasileiras, como o siriri, o boi-à-serra, o samba e o frevo, entre outras. Mostrando uma diversidade representativa e rica, através da dança, da música, das cores e, principalmente, mostrando os elementos que marcam a identidade cultural mato-grossense.

Como cuiabano pau-fincado (sou de Niterói, com mais de 50 anos de Cuiabá), influenciado pelo amor que tenho por esta terra e pelo que vi no espetáculo, o siriri é ‘o que há’ no repertório do Flor Ribeirinha. É muito contagiante. Um folguedo onde seus intérpretes – músicos e dançarinos, em especial; demonstram alegria e dinamismo incomuns, através dos movimentos, sons e as expressões faciais que esbanjam sorrisos e aquilo que vou chamar aqui de felicidade. Então, né…

O siriri

As origens do siriri datam de mais de dois séculos. A manifestação nasceu durante o período colonial através do sincretismo das culturas indígena, africana, portuguesa e espanhola. Suas raízes têm a ver com rituais e celebrações dos povos indígenas que habitavam a região de Cuiabá, como os Bororo, que foram incorporadas e adaptadas pela população mestiça e ribeirinha.

O nome “siriri”, conforme flagrei, deriva do tupi e refere-se aos cupins voadores – chamados de siriris, que surgem após as chuvas. Desde criança me acostumei a ver esses bichinhos que praticam o voo nupcial, perdem as asas e servem de banquetes pra passarinhos e outros seres viventes que andam pelo chão.

Da minha primeira infância, começo dos anos 1960, quando passava temporadas no sítio dos meus avós maternos, Bento Pires e dona Mita, na região de Nossa Sra. do Livramento, registra minha memória uma festa regada a siriri, na casa de Seo Tote e Ditinha. Ele na viola de cocho, ela no mocho, alguém no ganzá; e os casais dançando no terreiro em frente ao rancho de palha, situado nas imediações do sítio de Seo Bento. Eita… parece que foi ontem!

Antes de escrever este texto conversei com minha mãe e uma tia, para confirmar se era siriri mesmo que rolava nas cercanias do sítio de meus avós. E era. Disseram-me também que eram proibidas de dançar o siriri, porque a dança era pouco prestigiada e entendida como manifestação exclusiva da população subalternizada. A partir do final dos anos 1980 e nos anos 1990, o siriri começou a ser entendido, pelo poder público e pela elite cuiabana, como identidade cultural genuína, passando a receber um tratamento mais apropriado.

Flor Ribeirinha

O Flor Ribeirinha, com essa nominação, foi criado em 1995, por Dona Domingas, no bairro São Gonçalo Beira Rio. Um dos locais mais antigos de Cuiabá, fundado no século 18, situado nas margens do rio Cuiabá, em território dos indígenas Coxiponé. Naqueles tempos, o acesso à Cuiabá era somente fluvial e a comunidade de São Gonçalo era parada obrigatória das expedições paulistas que navegavam por estes remotos rincões brasileiros.

O grupo tem participado de competições internacionais e já conquistou títulos na Turquia (2017), na Polônia (2021) e na Bulgária (2022). Em 2023, venceu o “Cheonan World Dance Festival”, na Coreia do Sul, considerado o segundo maior evento de dança folclórica do mundo. Tornou-se o primeiro grupo brasileiro a ganhar a competição. Em 2018 fez turnê pela Europa e América do Sul, passando pela Itália, França, Peru e Paraguai, atraindo um público de mais de 500 mil espectadores.
Dona Domingas

Impossível não registrar o nome de Domingas Leonor da Silva, também conhecida como Dona Domingas, neste texto. Uma artesã, produtora cultural e dançarina, nascida em São Gonçalo Beira Rio.

Desde os oito anos conhece as artes da dança do siriri e foi a primeira mulher a tocar tamborim nas festas folclóricas da região, quebrando o domínio exercido pelos homens. Foi a fundadora do Flor Ribeirinha, que divulgou e promoveu a dança do siriri, além de outras manifestações da cultura popular de Mato Grosso. Aprendeu artesanato em barro com a mãe, índia Coxiponé.

  • Lorenzo Falcão, jornalista, poeta e escritor
  • Foto por Edu Slum

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