Obra estreia no dia 2 de setembro, às 19h, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto
A relação entre corpo, terra, memória e ancestralidade ganha forma no palco com a performance teatral “Nascida do Barro”, da atriz Juliane Coelho. A obra estreia no dia 2 de setembro, às 19h, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Barra do Garças, durante o I Congresso Internacional de Educação, Práticas e Políticas Culturais. A entrada é gratuita e aberta ao público.
Sem diálogos, a performance constrói sua narrativa a partir do corpo, do silêncio e da manipulação da argila. Em cena, Juliane molda o barro ao vivo e transforma a matéria em rostos, vasos e outras formas que remetem às memórias e aos vínculos com os antepassados.
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A escolha do barro como elemento central parte do desejo da atriz de investigar a relação entre matéria, corpo e as histórias que atravessam cada indivíduo.
“O barro apareceu como uma possibilidade de transformar uma matéria bruta em algo novo diante do público. A ideia de moldar o barro ao vivo também estabelece uma relação muito forte com o próprio fazer artístico. Assim como a matéria é transformada pelas mãos, nós também somos transformados pelas experiências, pelos encontros e pelo tempo”, explica Juliane.
Para a atriz, o barro carrega diferentes dimensões dentro da narrativa. Ao mesmo tempo em que remete à terra e à origem, ele também pode assumir novas formas e se transformar em corpo, objeto e história.
“O barro representa origem, memória, ancestralidade e transformação. Ele é terra, mas também pode se tornar corpo, objeto, forma e história. Para mim, trabalhar com o barro é falar sobre aquilo que nos constitui e sobre nossa capacidade de nos transformar”, afirma.

A construção da performance também passou por uma imersão artística no Rio de Janeiro, realizada com o coreógrafo Thales Ferreira. A experiência contribuiu para ampliar a pesquisa corporal de Juliane e a forma como ela ocupa o espaço cênico.
“O trabalho com Thales Ferreira me provocou a pensar o movimento não apenas como uma sequência de ações, mas como uma forma de comunicação. Passei a perceber o palco como um espaço de presença e escuta. O corpo não está ali apenas para executar, ele também conta, sente, reage e constrói a narrativa”, relata.
A coreografia é assinada por Thales Ferreira, com apoio de Bruna Carvalho, de Barra do Garças. A equipe conta ainda com Yandra Firmo, na preparação corporal; João do Couto, na produção, dramaturgia e texto; e Rafaella Borges, na comunicação e redes sociais. A ambientação incorpora peças de cerâmica produzidas pela artesã Sônia Chagas, do município de Goiás, estabelecendo um diálogo entre o trabalho artesanal e a narrativa apresentada em cena.
A trajetória de Juliane reúne diferentes frentes ligadas à cultura e à educação. Além de atriz e produtora cultural, atua como Agente Territorial da Cultura, oficineira na linguagem cênica e educadora, integra a Cia Blueberry de Teatro e preside a Associação Cultural Ciranda, onde desenvolve ações relacionadas à arte, cultura, educação e desenvolvimento humano. Segundo ela, todas essas experiências estão interligadas.

“Ser atriz me coloca no corpo e na cena, ser produtora me ensina a construir caminhos para que a arte aconteça, ser educadora e oficineira me aproxima das pessoas e dos processos de aprendizagem e ser Agente Territorial da Cultura amplia meu olhar para o território e para as necessidades de quem faz e acessa cultura”, destaca.
A educação também influencia diretamente sua prática artística. Segundo Juliane, o contato com diferentes processos de aprendizagem reforça a ideia de que não existe uma única maneira de fazer teatro.
“Cada pessoa chega com uma história, um corpo, uma memória e uma forma própria de perceber o mundo. Por isso, minha prática artística busca ser aberta ao encontro. O processo de criação também é um processo de escuta”, pontua.
Nesse sentido, o teatro ocupa um lugar central em sua trajetória. Para a atriz, a linguagem representa encontro, transformação e possibilidade, além de funcionar como instrumento de formação, trabalho e construção coletiva.
A apresentação em Barra do Garças também integra a perspectiva de ampliar o acesso às artes cênicas para além dos grandes centros. Juliane avalia que a distância, a falta de equipamentos culturais, a concentração de recursos e as dificuldades de circulação ainda são obstáculos para artistas e público em diferentes regiões.

“Democratizar o acesso ao teatro também significa levar a arte para onde as pessoas estão, criar possibilidades de encontro e fortalecer os artistas e grupos dos territórios. Como Agente Territorial da Cultura, essa é uma questão que considero fundamental. A cultura precisa circular e chegar aos diferentes territórios”, afirma.
A escolha da universidade como espaço para a apresentação reforça essa proposta de aproximação entre arte e comunidade. Para Juliane, a circulação de espetáculos em Barra do Garças demonstra que existe interesse do público local pelas artes cênicas e contribui para ampliar as possibilidades de acesso à produção cultural.
“Levar a arte para um público diverso é uma forma de ampliar a nossa visão de mundo”, finaliza a atriz.
