“O Rio do Meu Quintal”, uma metáfora da vida humana e do país

Em seu novo livro, o escritor inunda a literatura com a magia da infância às margens de um grande rio e mistura encantamento, memória, resistência e esperança

Da Assessoria

Quando um escritor transforma sua própria memória em matéria literária, ele não escreve apenas sobre si. Escreve sobre todos nós. Esse é o fio que costura “O Rio do Meu Quintal”, o mais recente livro do escritor, poeta e jornalista Antonio P. Pacheco, que será lançado no próximo dia 10 de julho, na Academia Mato-grossense de Letras (AML), dentro da programação do projeto Casa Aberta.

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Publicada pela Calendas Editorial, com ilustrações do artista Robson D. Peres, a obra é fruto do Edital Gambira 2024, viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, e surge como mais um marco dentro de uma trajetória literária que ultrapassa quatro décadas de intensa produção intelectual e cultural em Mato Grosso.

A Literatura como Rio de Memórias

“O Rio do Meu Quintal” é um livro de formação, mas também de memória coletiva. Através do olhar de Quinho, um menino que cresce às margens de um grande rio, a narrativa perpassa tanto as águas da imaginação quanto as correntezas da história brasileira, especialmente dos anos 1960 a 1990 — décadas de ditadura, abertura política, lutas populares, transformações sociais e culturais que deixaram marcas profundas no país e em seus habitantes.

Ao mesmo tempo, o livro é uma metáfora poderosa sobre como se cresce no Brasil: aprendendo a navegar entre afetos, violências, perdas, resistências e descobertas. Uma infância que, como o próprio rio do título, não tem margens fixas — transborda em direção à fantasia, à memória e à reflexão sobre o mundo.

Uma Obra que se Inscreve em uma Trajetória Coerente

Este é o quinto livro autoral de Antonio P. Pacheco, que construiu uma obra literária marcada pela diversidade de gêneros e pela busca incessante de dialogar com o humano, com o território e com a cultura.

Em “O Universo no Espelho – Aqueles Outros e Suas Versões das Histórias”, livro de contos, o autor explora os recantos desconhecidos de universos literários de autores como Gabriel Garcia Marquez, Clarice Lispector, Hernest Hemingway, Julio Cortazar, Ligya Fagundes Telles, James Joice, Isaac Babel, entre outros. Uma obra subversiva, intertextual, atemporal e desafiadora para quem está começando a trilhar os caminhos da leitura tanto quanto para os leitores veteranos já amortecidos pelo cansaço das suas viagens, pois que encontram neste livro, o sopro revigorante de novos caminhos, novas paisagens, novas personagens, novas possibilidades de descobertas. Um livro em que cada página oferece ao leitor múltiplas leituras da realidade — um jogo literário onde espelhos não refletem, mas refratam.

Na poesia, sua voz ecoa ora vibrante, ora pungente, ora estridente, mas sempre impactante, em “Versos Náufragos em Rio sem Margens”, uma obra bilíngue (português-espanhol) que reafirma o compromisso com uma poética sem limites estilísticos, sem “fronteiras” mesmo — não apenas geográficas, mas também existenciais. Aqui, o poeta se faz também tradutor de mundos, de afetos e de deslocamentos.

Em cada um de seus livros, Antonio P. Pacheco, à sua maneira, constrói pontes entre o local e o universal, entre o íntimo e o coletivo, consolidando uma escrita que se recusa ao isolamento e que se oferece como espelho — ou como rio — para quem se dispõe a navegar.

As Leis de Incentivo e a Urgência das Políticas Culturais

O autor reconhece que a publicação de “O Rio do Meu Quintal” só foi possível graças ao fomento público cultural, através da Lei Paulo Gustavo, executada em Cuiabá pelo Edital Gambira 2024. “Essa é, na verdade, uma demonstração concreta de como políticas públicas de incentivo à cultura, como também é Lei Aldir Blanc, hoje trnasformada na Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), são essenciais não apenas para a sobrevivência dos artistas, mas para a própria saúde cultural do país”, salienta Antonio Pacheco.

Na avaliação do escritor, sem esses mecanismos, obras como esta — que documentam, celebram e problematizam a cultura, a memória e a vida brasileira — dificilmente chegariam ao público. “O risco de apagamento da produção literária fora dos grandes centros editoriais do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, é real e constante. As leis de incentivo atuam, portanto, não como um favor, mas como uma reparação necessária a décadas de desigualdade estrutural no acesso à cultura”, pontua Pacheco.

Mato Grosso e a Literatura Invisibilizada

Para o escritor e ativista cultural, a produção literária de Mato Grosso, embora riquissima, plural e profundamente enraizada nas experiências humanas e culturais de seu território, segue sendo pouco reconhecida nos circuitos nacionais.

“Este é um problema que nasce da centralização da indústria editorial e dos sistemas de crítica literária nas regiões Sul e Sudeste mantém. Historicamente, os autores mato-grossenses — e de muitos outros Brasis — vivem à margem dos debates, crítica, da divulgação e da circulação. A nossa luta contra este insulamento já tem mais de 40 anos, se iniciou lá em 1980, quando começamos a fazer teatro, escrevendo e encenando peças em escolas de Barra do Garças e outras cidades do Vale do Araguaia, embrião que viria a gerar o movimento do coletivo UnPoema, que até hoje segue produzindo arte, especialmente a literatura”, explica Antonio Pacheco.

Essa invisibilidade não é um problema apenas dos escritores; é uma questão que atravessa a formação cultural de gerações inteiras. Leitores que não se veem nas páginas dos livros, que não reconhecem sua paisagem, sua história, suas vozes, tornam-se leitores apartados, distantes, desconectados.

Formar Leitores é um Ato Político e Cultural

Por isso, a defesa de Antonio P. Pacheco vai além da escrita: passa pela urgência de que a literatura mato-grossense esteja presente nas salas de aula, do ensino fundamental à universidade. Não como exotismo ou curiosidade regional, mas como parte legítima e necessária da formação cultural e crítica dos estudantes.

“Levar autores locais às escolas, promover encontros, rodas de leitura, oficinas e debates não é apenas uma estratégia pedagógica — deve ser uma política de pertencimento e auto-sobrevivência. É garantir que crianças, jovens e adultos reconheçam em suas próprias histórias, em sua própria língua e em seus próprios territórios, o direito de existir também na literatura.

O Livro, o Rio e o Futuro

Ao lançar “O Rio do Meu Quintal”, Antonio P. Pacheco não entrega apenas mais um livro aos leitores. Entrega um manifesto — feito de palavras, imagens, memórias e afetos — sobre a necessidade de olhar para o próprio quintal antes de se perder na busca por paisagens distantes.

No fluxo das águas desse rio, a literatura se faz resistência, memória e, sobretudo, futuro. Um futuro que depende, urgentemente, de políticas públicas consistentes, de leitores conscientes e de uma sociedade que reconheça em seus escritores não apenas contadores de histórias, mas construtores de mundos possíveis.

SERVIÇO

Lançamento do livro: “O Rio do Meu Quintal”
Autor: Antonio P. Pacheco
Data: 10 de julho de 2025
Horário: 19h
Local: Academia Mato-grossense de Letras (AML) – Rua Barão de Melgaço, 3869, Centro, Cuiabá-MT
Entrada: Gratuita

Publicação: Calendas Editorial
Contemplado pelo Edital Gambira 2024 – Lei Paulo Gustavo / Secretaria Municipal de Cultura de Cuiabá
Ilustrações: Robson D. Peres

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