O espaço se consolidou como um dos principais pontos turísticos da cidade e reforça identidade ligada ao imaginário extraterrestre
Da Redação, por Ana Luiza Queiroz
A estrada de terra corta a Serra do Roncador como um risco irregular no mapa. Era 2007, noite de lua cheia, e a equipe do programa Trilhas e Aventuras já se preparava para deixar o Vale dos Sonhos, em Barra do Garças, depois de três dias de gravações. A proposta do programa era simples, mostrar as belezas naturais de Barra do Garças.
O atraso da saída veio por meio de uma gentileza. O caseiro da fazenda Carajás, onde o grupo estava locado, acostumado com o silêncio prolongado do alto da serra, convidou a equipe para um jantar. Frango caipira, conversa estendida, tempo que escorre sem pressa. Quando finalmente pegaram a estrada, já passava das sete da noite.
O caminho, difícil, só permitia andar devagar. Porteiras sucessivas, curvas, trechos esburacados. Dentro do carro, estavam cinco pessoas, dentre elas o jornalista Genito Santos, que, até então, tratava histórias de objetos voadores não identificados como folclore, um mero material a ser ouvido, mas sempre checado, nunca assumido. “O jornalista não atua com crendice”, conta ele.
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Foi durante uma dessas pausas improvisadas que o percurso mudou de natureza. Um dos integrantes, Adonias Coelho, pediu para descer, porque precisava de um momento fora do carro para urinar. A lua iluminava o cerrado com nitidez suficiente para desenhar contornos, mas não o suficiente para se enxergar o que estava ali na serra. Minutos depois que ele saiu, aqueles dentro do carro ouviram um grito. Adonias tinha visto uma luz.
Suspensa sobre a formação conhecida como Dedo de Deus, um ponto turístico em Barra do Garças, a luminosidade parecia concentrada, intensa demais para passar despercebida. Houve num primeiro momento o riso nervoso, provocações lançadas ao céu. Adonias até mesmo pediu que a luz se aproximasse, que ele estava cansado de vê-la de longe, brincadeira que Genito acompanhou, muito para a preocupação daqueles dentro do carro. Quando não obtiveram reposta alguma do ponto de luz, seguiram o rumo.

Fonte da imagem: Reprodução.
Por alguns quilômetros, o episódio pareceu se dissolver na estrada. Até que, no trecho de curvas fechadas que liga diferentes lados da serra, o cenário se reorganizou naquele mesmo terror já conhecido. A luz voltou, mas agora em movimento. Surgindo do vale, como se ganhasse altura em um impulso vertical, antes de avançar na direção do carro horizontalmente. Era enorme, do tamanho de um caminhão de mudança, e não tinha som algum, nem piscava.
Genito a enxergava como algo vivo. “Era muito iluminado, e dava para ver umas colorações amareladas, avermelhadas, laranjadas e, volta e meia, no entremeio dele, parecia como se fosse uma sombra na água, uma sombra distorcida”, relata.
O carro seguiu, mas agora aquilo já não era uma condução comum, e sim uma fuga. Por três ou quatro minutos, que para eles pareceu durar uma eternidade, o objeto acompanhou o veículo, descendo quase ao nível do cerrado. Dentro do carro, os cinco integrantes estavam assustados. Olhar para frente virou um esforço consciente de Genito, porque qualquer distração poderia jogar o veículo para fora da estrada.
Em determinado ponto, a luz desviou, desaparecendo atrás de um morro isolado, mas o grupo continuou. Não houve bloqueio, nem mesmo houve contato além da perseguição. Quando chegaram ao Vale dos Sonhos, o grupo parou o carro e desceu na rodoviária. Precisavam processar o que tinham visto, mas estavam todos muito atônitos, falando uns por cima dos outros. Adonias repetia, quase como um mantra: “Eu vi um disco voador, e ninguém mais pode negar”. Genito frisa que não havia álcool, não havia qualquer substância que justificasse alucinação coletiva, todas as cinco pessoas tiveram a mesma experiência.
Mas tinha um porém: não havia imagens, nem mesmo fotografias. No meio do pânico e do apavoro, a equipe do programa Trilhas e Aventuras só conseguia pensar em fugir. Genito, porém, também era artista plástico, e para não deixar esse momento de lado, ele registrou o objeto com base na memória daquela noite assustadora na serra.
Anos mais tarde, pessoas da região viram uma luz parecida e tiveram a oportunidade de gravarem o fenômeno. Quando viu a gravação de uma luz semelhante, captada por outra pessoa na região, Genito imediatamente reconheceu padrões e quando mostrou aos antigos companheiros de viagem, todos concordaram que se parecia muito com a luz daquele dia.
Esse é o relato de Genito Santos, que hoje em dia é um dos principais nomes quando se fala do Discoporto, localizado em Barra do Garças. A cidade, que já é cercada por histórias e avistamentos desde décadas anteriores, se tornou um objeto de apuração contínua para ele.
Barra do Garças se consolidou, ao longo das últimas décadas, com uma identidade turística incomum no Brasil, a sua relação com a ufologia. No centro dessa narrativa está o Discoporto, espaço simbólico criado na década de 1990 por meio de uma lei que, hoje, figura entre os pontos mais visitados do município.

De acordo com Genito, que também foi Secretário de Turismo Adjunto de Barra do Garças, o local exerce papel relevante na atração de visitantes, ainda que funcione sob limitações ambientais. “Ele tem um impacto, sim, para Barra do Garças, mas precisamos entender que tipo de impacto. O discoporto está dentro de uma área de preservação permanente, então a visitação é gratuita e ocorre apenas durante o dia”, explica.
O Discoporto, localizado no Parque Estadual da Serra Azul, tem o acesso permitido das 7h às 17h. A restrição de horário impede, por exemplo, a exploração turística noturna, que é considerada ideal por entusiastas da ufologia. Exceções ocorrem durante eventos específicos, como o Congresso Mato-grossense de Ufologia e Parapsicologia, realizado na cidade há quatro anos, que inclui vigílias noturnas.
Mesmo com essas limitações, o interesse pelo tema tem movimentado o fluxo turístico. “Muitas pessoas vêm de outros lugares movidas por esse sentimento de encontrar algo inusitado, alguma experiência que possa suprir essa curiosidade”, afirma Genito. Segundo ele, o Discoporto já foi apontado como o segundo ponto mais visitado da cidade, atrás apenas do Parque Municipal das Águas Quentes.
A origem do espaço está ligada a uma estratégia de marketing territorial baseada em relatos de avistamentos na região. “Na época, isso não passava de uma fantasia, uma estratégia de marketing”, relembra o jornalista, que participou da concepção artística do local em 1995, a convite de Valdon Varjão. O interesse pessoal pelo tema, no entanto, só viria anos depois, após essa experiência vivida em 2007, na Serra do Roncador. “Depois disso, passei a olhar o assunto com mais critério e responsabilidade. Cheguei à conclusão de que aqui não é um lugar comum”, conta.

Fonte: Reprodução.
Além do simbolismo, o Discoporto é frequentemente citado como diferencial para o turismo local. Durante breve passagem pela Secretaria de Turismo, Genito defendeu o uso mais estratégico desse potencial. “Se soubéssemos aproveitar melhor essa característica, poderíamos atrair visitantes do mundo inteiro. É uma sacada de marketing baseada no que temos de mais icônico”, argumenta. Ele compara a iniciativa a outros atrativos turísticos consolidados no Brasil e no exterior, que exploram elementos únicos ou exóticos para atrair público.
Genito também é responsável pela concepção estética do local. O convite para desenvolver as artes partiu de Valdon Varjão, idealizador do projeto de lei em 1995. “Para mim, foi um trabalho marcante. Eu já era artista plástico, mas participar da criação de um espaço que se tornaria símbolo da cidade foi algo diferente”, conta.
Ele explica que buscou construir uma linguagem visual que dialogasse com o imaginário popular, mas que também criasse identidade própria para Barra do Garças. “A ideia era fugir do clichê. Não fazer algo genérico, mas criar uma estética que representasse a cidade. Por isso, o ET que desenvolvi tem características próprias, uma expressão mais amigável, quase como um símbolo de boas-vindas”, explica o jornalissta.
Essa proposta estética se expandiu para além do Discoporto e passou a integrar outros espaços urbanos e eventos culturais. “Eu sempre procurei relacionar essa figura do ET com a nossa cultura local. Já fizemos dançarinos de quadrilha com traços de extraterrestres, já utilizamos essa imagem em eventos como apresentações aéreas. É uma forma de reforçar essa identidade.”

Segundo ele, o uso do elemento ufológico na arte também enfrentou resistência inicial. “No começo, muita gente via como brincadeira, não levava a sério. Mas com o tempo, fui mostrando que isso fazia parte de uma estratégia maior, de posicionamento turístico”, afirma. Hoje, as referências visuais criadas por Genito estão espalhadas pela cidade, em totens, entradas e espaços públicos. “A gente trabalha nossas aves, nossos rios, nossa fauna, mas também trabalha o ET como símbolo. Porque, no fim, isso é o que nos diferencia. É o que desperta curiosidade.”
Para o artista, essa construção simbólica tem impacto direto na forma como o destino é percebido. “Quando você cria um ícone, você cria memória. E o Discoporto, junto com essas artes, ajuda a vender a imagem de Barra do Garças como um lugar diferente”, finaliza.

