Exposição celebra os 50 anos de trajetória artística de Anna Amélia Marimon no MACP-UFMT

Mostra imersiva reúne pinturas, desenhos, esculturas e instalações da multiartista mato-grossense e segue aberta para visitação gratuita até 25 de agosto.

Da Redação

O Museu de Arte e Cultura Popular (MACP) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, recebe até o dia 25 de agosto a exposição “Labirinto da Fábula – Uma autobiografia dos 50 anos de arte”, da artista visual e performer Anna Amélia Marimon. Com entrada gratuita, a mostra convida o público a percorrer cinco décadas de criação artística por meio de uma experiência imersiva que reúne pinturas, desenhos, esculturas, objetos e instalações produzidos ao longo de sua trajetória.

Mais do que uma retrospectiva, a exposição transforma as galerias do museu em um percurso sensorial e autobiográfico, onde memória, imaginação e afeto se entrelaçam. A proposta é apresentar ao visitante diferentes fases da produção de Anna Amélia, uma das artistas mais reconhecidas do cenário cultural mato-grossense, cuja obra transita entre as artes visuais, a performance e a experimentação de linguagens.

Foto: Giulia Medeiros

Ao longo da visita, o público encontra desenhos, pinturas, esculturas e instalações que dialogam entre si, revelando temas recorrentes na trajetória da artista. Entre eles estão a relação com a natureza, a preservação ambiental, a transformação de materiais descartados em arte, os elementos da cultura popular e a construção de narrativas fantásticas que atravessam seu imaginário criativo desde a década de 1970.

A exposição também evidencia uma característica marcante de sua produção: a capacidade de transformar objetos do cotidiano em obras carregadas de significado. Materiais reaproveitados, elementos encontrados e resíduos que seriam descartados ganham novos usos e interpretações, compondo trabalhos que unem arte, sustentabilidade e reflexão sobre os impactos do consumo contemporâneo.

Outro aspecto presente na mostra é o olhar atento da artista para as transformações da paisagem mato-grossense. Ao longo de mais de cinco décadas, Anna Amélia registrou em suas obras as mudanças provocadas pela ação humana sobre os biomas do estado, construindo uma produção que combina lirismo visual e consciência crítica.

Foto: Giulia Medeiros

A temporada também representa um reconhecimento à longevidade de uma carreira construída de forma contínua e independente. Em um cenário artístico historicamente marcado por desigualdades de gênero, a exposição reafirma a relevância da contribuição de Anna Amélia para a arte produzida em Mato Grosso e para a formação de novas gerações de artistas.

A escolha do MACP-UFMT como espaço da celebração reforça ainda a relação da artista com a universidade, instituição que faz parte de sua trajetória pessoal e profissional. Ao longo dos anos, Anna Amélia desenvolveu projetos, participou de ações culturais e manteve uma presença constante nos espaços de produção artística e acadêmica ligados à UFMT.

Com temporada até agosto de 2026, “Labirinto da Fábula” se consolida como uma das principais atrações culturais de Cuiabá neste ano, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer, revisitar e compreender a amplitude da obra de uma artista que transformou memória, imaginação, crítica social e experimentação estética em uma produção que atravessa gerações.

A filha de Anna Amélia, Marianna Marimon, compartilha um texto emotivo sobre a mãe e sua carreira artística.

Das mãos hábeis, ela cria mundos e fábulas.
Nas minhas lembranças mais infantis, a vejo no labor diário.
Uma artista incansável desbravando o seu próprio imaginário criativo.
Garrafas PET se tornam peixes voadores em seu quintal mágico, cacos de vidro, galhos secos, pedaços de telha e tijolo, bonecas quebradas, e spray de cores metálicas fazem do entulho reflexo dos tempos de consumo desenfreado.
Latas de alumínio se transformam em uma árvore de natal de vários metros de altura.
Não descarte, faça arte.
É o seu chamado à responsabilidade coletiva com o mundo em que vivemos.
Das cores explosivas, paisagens que se modificam com o avanço da monocultura em um Estado onde antes tudo era floresta, cerrado e pantanal.
Desde a década de 70, ela retrata em quadros a devastação do homem na terra.
Dos traços finos e delicados, a potência da denúncia, o relevo das montanhas, a imensidão do verde que os olhos não alcançavam, agora reduzido à tinta que expressa em suas pinceladas.
As camadas dos seus lápis de cor dão vida às raposas em seus desenhos fantásticos.
Anna nunca parou de produzir. Celebrar a sua intensa produção artística ao longo de mais de 50 anos de carreira é mais do que justo. É necessário.
Na história da arte, as mulheres foram apagadas, roubadas, silenciadas. Isso mudou. Agora só precisamos trabalhar duramente ao longo de cinco décadas para sermos reconhecidas.
E que simbólico que isso aconteça aqui, na UFMT, um espaço que sempre foi resistência diante de tempos sombrios. O mesmo lugar onde ela pisou ao chegar nessas terras cuiabanas, que abriga o bosque onde ela trazia suas filhas para brincar, as salas de aula que ela estudou e onde esteve com sua arte, do museu ao teatro.
Anna ocupou esse espaço como se fosse uma extensão da sua própria casa e aqui depositou parte dos seus sonhos.
A sua capacidade de se reinventar diante das adversidades revela o seu lado raposa de ser. O lado animal que se transmuta para sobreviver. É isso o que veremos aqui hoje. As suas luzes e sombras, a sua trajetória entrelaçada, onde a arte se mistura a tudo, onde a arte penetra tudo, fazendo até dos escombros poesia.

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