Edição especial reúne memória, cultura negra e saúde mental em percurso por sete pontos simbólicos da região central da Capital
Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto
Neste sábado (12), às 7h30, ocorre mais uma edição da Rota da Ancestralidade, dessa vez voltada à saude mental, com uma caminhada pelo Centro Histórico de Cuiabá. A atividade começa na Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, e propõe um percurso por sete pontos simbólicos relacionados à presença e à contribuição da população negra na construção da cidade.
A programação terá início com um café da manhã coletivo. Às 8h, os participantes seguem para a caminhada, que será encerrada com uma oficina de maculelê na Praça da Mandioca. A organização orienta os participantes a levarem boné ou chapéu, garrafa de água e protetor solar.
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A proposta busca relacionar território, memória, identidade e bem viver. Para o produtor cultural e idealizador da Rota da Ancestralidade, Cristóvão Luiz Gonçalves da Silva, conhecer a própria história é também uma forma de fortalecer o sentimento de pertencimento.
“A ignorância escraviza, o conhecimento liberta. Conhecer a sua verdadeira história é uma forma também de pertencimento ancestral. A rota nos traz possibilidades de ouvir a voz do silêncio ancestral. Engana-se quem pensa que os ancestrais são apenas aqueles que partiram para um plano invisível. Nós também temos os nossos ancestrais vivos aqui na Terra, juntinho de nós.”, afirma.
Segundo Cristóvão, a atividade especial voltada à saúde mental parte da compreensão de que o cuidado não está restrito à dimensão individual. O contato com a cultura, os vínculos comunitários e o reconhecimento das próprias raízes também podem contribuir para a construção de uma relação mais saudável com a cidade e com a própria identidade.

Foto: Arquivo pessoal.
Sete pontos e muitas histórias
A Rota da Ancestralidade contempla sete locais do Centro Histórico considerados simbólicos para a memória da população negra em Cuiabá. Entre eles estão o Largo do Rosário, a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, a Praça da Mãe Preta e o Beco do Candeeiro.
Cristóvão conta que parte das histórias trabalhadas durante o percurso surgiu a partir de relatos de pessoas mais velhas da comunidade. Entre elas está Lucilo Libanio de Souza, de 82 anos, devoto de São Benedito e considerado por Cristóvão um “amigo Griô”. Em 2018, Libanio compartilhou nomes de famílias negras tradicionais que viviam nas proximidades da Igreja do Rosário, nos bairros Baú Sereno e Araés.
“Em 2018, conversando com seu Libanio, eu precisava de nomes de famílias negras que moravam aqui. Ele falou: ‘Pera um minuto aí, meu filho’, e mandou uma cartinha com o nome das famílias tradicionais negras que eram muito conhecidas ali ao redor da Igreja do Rosário, Baú Sereno e Araés”, conta.

Foto: divulgação.
Para o produtor cultural, ouvir essas histórias é uma das principais características da rota. “A Rota da Ancestralidade nos dá a possibilidade de ouvir os anciões, as anciãs. As marcas da população negra podem ser percebidas no Centro Histórico de Cuiabá. A cada dia você vai encontrando mais vestígio”, explica.
O percurso também chama atenção para marcas da presença africana que podem passar despercebidas no cotidiano. Entre os exemplos estão símbolos encontrados em gradis de imóveis da Rua Ricardo Franco, conhecida como Rua das Pretas. De acordo com Cristóvão, são símbolos Sankofa e Adinkras, associados a povos africanos.
“São símbolos Sankofa e símbolos Adinkras, que são desenhos e formatos africanos nos gradis e passam despercebidos. Mas, quando a gente passa por aqui, é mais um ponto para contextualizar essa história”, conta.
Pesquisas arqueológicas recentes também ampliaram as possibilidades de interpretação da região. Segundo ele, artefatos e vestígios relacionados a povos africanos, incluindo referências aos Bakongos, foram encontrados durante intervenções em imóveis próximos à Igreja do Rosário.
“Para cada Rota da Ancestralidade você tem uma história. Agora, com as pesquisas, encontramos artefatos, vestígios e objetos que trazem marcas dos povos Bakongos e de povos africanos nas casas que estão sendo reformadas pelo projeto Canteiro Modelo de Arquitetura da UFMT. Isso nos deixou muito felizes, porque são vestígios de homens e mulheres que muitas vezes, quando o cortejo passa, se manifestam falando da importância da preservação dessa memória.”, destaca.

Da Consciência Negra para o ano inteiro
A iniciativa tem origem em 2012, quando Cristóvão idealizou o Kizomba África de Todos Nós, um cortejo afro realizado no Centro Histórico de Cuiabá durante o mês da Consciência Negra.
Com o passar dos anos, professores, pesquisadores e participantes passaram a questionar a necessidade de manter as discussões sobre ancestralidade e cultura negra ao longo de todo o ano. A partir dessas articulações surgiu a Rota da Ancestralidade, estruturada como uma proposta de turismo afrocentrado pelo Centro Histórico.
Atualmente, as rotas podem ser realizadas por meio de agendamento de instituições. Escolas públicas, universidades e órgãos como Ministério Público e Defensoria Pública já participaram das atividades. Segundo Cristóvão, embora exista a intenção de realizar uma rota coletiva a cada dois meses, a procura faz com que sejam realizadas outras edições ao longo do ano.
As chamadas edições especiais são destinadas a grupos ou instituições que ainda não participaram da experiência ou que desejam abordar um tema específico. Já foram realizadas, por exemplo, atividades voltadas às mulheres do hip-hop e às parteiras, benzedeiras e lavadeiras.
A edição deste sábado é dedicada à saúde mental e propõe uma reflexão sobre como memória, identidade, cultura e pertencimento podem fazer parte das estratégias de cuidado.
Para Cristóvão, preservar essas histórias também é uma maneira de projetar o futuro. “Gostaríamos que essas pessoas que participassem levassem consigo a paz, o amor, a alegria do cuiabano, esse bem viver com algo que nos é sagrado, que é a liberdade”, finaliza.

