Fora do eixo, audiovisual mato-grossense cresce e amplia debate sobre cinema nacional

Crescimento recente fortaleceu o setor, mas área ainda busca mais espaço e investimentos

Da Redação, por Ana Luiza Queiroz Zambonatto

O audiovisual mato-grossense vive uma fase de crescimento e fortalecimento. Impulsionado por investimentos públicos, reconhecimento nacional e pela consolidação de profissionais locais, o estado amplia sua presença nas telas brasileiras com filmes, séries e produções marcadas por elementos culturais e narrativas ligadas ao território regional.

O atual momento de expansão do audiovisual mato-grossense também reflete os impactos de políticas públicas voltadas ao financiamento de produções independentes e lutas do próprio setor, que há anos pedem melhorias e mais estrutura. Um dos principais exemplos de investimento nacional é a Lei Paulo Gustavo, por meio da qual Mato Grosso executou cerca de 89% dos recursos federais recebidos, totalizando mais de R$ 27 milhões investidos diretamente no setor audiovisual.

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Além disso, em 2026, Mato Grosso garantiu R$ 18 milhões em investimentos para o setor audiovisual por meio da Política de Arranjos Regionais do Audiovisual, realizada em parceria com o Governo Federal. Os recursos serão destinados à produção de longas-metragens, telefilmes e séries, fortalecendo a cadeia produtiva local e ampliando o protagonismo do estado no cenário audiovisual brasileiro.

A atriz Bella Campos, cuiabana, foi protagonista do filme ‘Cinco Tipos de Medo’, gravado em Cuiabá e regiões próximas da capital.
Fonte: Reprodução.

Esse avanço também ganhou visibilidade nacional com produções recentes gravadas em Cuiabá e em outras regiões do estado. O filme Cinco Tipos de Medo, dirigido por Bruno Bini, foi gravado inteiramente em Cuiabá e se tornou o primeiro filme mato-grossense a disputar a Mostra Competitiva Nacional do Festival de Gramado e conquistou quatro Kikitos, incluindo Melhor Filme.

Com elenco formado por nomes como Bella Campos, Xamã e Bárbara Colen, a produção estreou nacionalmente em mais de 200 salas de cinema, levando para as telas uma Cuiabá periférica, urbana e distante dos estereótipos normalmente associados ao estado.

Outro projeto que marcou o audiovisual mato-grossense é o telefilme Amor em Movimento, primeiro a ser produzido em Mato Grosso e exibido em TV Aberta. A produção estreou em abril, durante as comemorações do aniversário de Cuiabá, na programação da TV Centro América, afiliada da Globo no estado.

Produção e elenco de ‘Amor em Movimento’.
Foto: Reprodução.

Dirigido por Danielle Bertolini e Perseu Azul, o telefilme mistura comédia romântica adolescente e valorização cultural regional. A trama acompanha o relacionamento entre uma jovem cuiabana e um rapaz do interior, tendo como pano de fundo a tentativa de manter vivo um tradicional grupo de siriri, dança típica de Mato Grosso.

A atriz Sophia Campos, de 21 anos, interpretou a personagem Corina, uma adolescente apaixonada por K-pop. Segundo ela, o processo de construção da personagem foi um dos mais marcantes de sua carreira. “Foi muito um encontro certo, porque ela me lembra muito quem eu já fui muitos anos atrás. Na hora eu relembrei o meu passado com K-pop, joguei tudo que eu tinha ali e consegui”, relembra.

Ela destaca que o trabalho de preparação durou cerca de um mês e meio e envolveu também dança e expressão corporal. “Foi um papel extremamente divertido de fazer. A personagem dança siriri e também dança K-pop. Então foi muito legal colocar o meu corpo nisso, porque eu nunca tinha feito uma personagem que dançava por si só”, explica.

Sophia como Corina.
Fonte: Reprodução.

A produção foi gravada em diferentes pontos de Cuiabá, incluindo o bairro São Gonçalo Beira Rio, o Liceu Cuiabano e espaços ligados à cultura popular da capital. Para Sophia, filmar nesses locais trouxe ainda mais identificação com o projeto, especialmente por estar de volta no local em que estudou. “Foi extremamente prazeroso estar ali contando a história do Flor Ribeirinha, dançando em um espaço que carrega tanta cultura. E principalmente gravar no Liceu Cuiabano, que eu fui aluna também, então foi uma nostalgia poder voltar pra ali, ver como que o espaço tá, ver que as pessoas ali dentro são acolhedoras como eram na época que eu estudei lá, então pra mim foi muito legal”, conta.

Além da exibição na televisão, “Amor em Movimento” também chegou ao Globoplay, ampliando o alcance nacional da obra. O projeto faz parte do programa Telefilmes Regionais, iniciativa desenvolvida em parceria com a Globo para incentivar produções fora do eixo Rio-São Paulo. E, para Sophia, um dos principais diferenciais da obra foi justamente o protagonismo de profissionais locais. “Era uma produção inteira composta por pessoas daqui, elenco daqui, preparadores daqui. Isso foi muito prazeroso porque mostra o nosso estado e a nossa diversidade”, afirma.

A atriz avalia que o crescimento recente do audiovisual mato-grossense representa um passo importante no processo de descentralização do cinema brasileiro. “Grande parte dos filmes que alcançam destaque nacional ainda está concentrada no eixo Sul-Sudeste. Então ter esse olhar voltado para Mato Grosso é fantástico para o audiovisual daqui”, pontua.

Fonte: Reprodução.

Apesar do avanço, Sophia acredita que o setor ainda precisa crescer em áreas como distribuição, exibição e formação profissional. “Na produção, a gente avançou muito, principalmente com o curso de Cinema da UFMT, que incentiva novos profissionais. Mas ainda faltam mais investimentos, mais cursos e mais incentivo para formar atores e técnicos. A gente precisa investir mais para que as pessoas consumam essas obras e tenham interesse em assistir aos filmes feitos aqui”, afirma.

O mercado audiovisual brasileiro tem como caracteristica uma grande centralização geográfica e financeira no eixo Rio-São Paulo. Esse fenômeno, monitorado de perto por relatórios da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e mapeamentos do Itaú Cultural, evidencia o tamanho do desafio enfrentado por produtores que tentam filmar fora do principal polo econômico do país.

Segundo dados da Ancine, o Sudeste abocanha uma fatia que oscila de 89% de todo o orçamento nacional voltado ao repasse para projetos audiovisuais, com o Rio de Janeiro, que lidera o balanço histórico com cerca de 47% das verbas liberadas via Lei do Audiovisual, seguido de perto por São Paulo, que retém 41%.

Já a região Norte costuma figurar na base da pirâmide financeira, recebendo com frequência menos de 2% do bolo total de fomento indireto. O Centro-Oeste apresenta uma leve vantagem impulsionada pela infraestrutura política do Distrito Federal, mas estados como Mato Grosso e Goiás lidavam, até poucos anos atrás, com repasses extremamente tímidos, flutuando entre 5% e 12% nas linhas gerais de fomento da Ancine.

O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) passou a adotar recentemente regras rígidas de descentralização, exigindo por lei que um mínimo de 30% dos recursos de suas chamadas públicas seja destinado obrigatoriamente a projetos do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Isso, combinado com a crescente do audiovisual em Mato Grosso, pode ajudar a expandir o setor e fortalecer suas bases produtivas.

Para Sophia, o atual momento representa apenas o começo de uma transformação maior no audiovisual regional. “A gente está dando os primeiros passos. O que eu espero é que esse primeiro passo seja seguido por mais obras audiovisuais com profissionais do nosso estado”, conclui.

Fonte: Reprodução.

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