Produção lança quatro episódios entre 26 e 29 de setembro, com encontros mediados pelo griô Cristóvão Luiz e protagonizados por pessoas que preservam saberes e tradições negras no estado
Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto
Estreia, neste sábado (26), o primeiro episódio da websérie documental “Fala, Griô”, que apresenta histórias de vida, memória e ancestralidade de pessoas negras que contribuem para a preservação da cultura de Mato Grosso. Ao todo, serão quatro episódios, publicados diariamente até 29 de setembro, sempre às 9h, no YouTube do Coletivo Audiovisual Produção em Rota. A produção tem mediação do griô Cristóvão Luiz e direção e roteiro da jornalista e documentarista Bruna Maciel.
A primeira temporada acompanha as histórias do professor Rinaldo Almeida, de Dona Matilde Silva, mestra do siriri, de Mestre Toty, ligado à tradição do Congo e do Congo Mirim, e de Maria do Chá, guardiã de conhecimentos sobre raízes e plantas no Quilombo Mata Cavalo. As entrevistas foram realizadas em espaços ligados às trajetórias dos personagens, como o Centro Histórico de Cuiabá, o quilombo urbano do Passaredo e o Quilombo Mata Cavalo.
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A produção é conduzida por duas perguntas centrais sobre quem é a pessoa por trás daquela história e o que significa, para ela, envelhecer. A partir dessas reflexões, os episódios percorrem temas como pertencimento, espiritualidade, cultura, cuidado e a preservação de saberes transmitidos de geração em geração.

Segundo Bruna Maciel, o projeto surgiu a partir do trabalho desenvolvido por Cristóvão Luiz há mais de 15 anos, especialmente no Centro Histórico de Cuiabá. Parte dessa trajetória já havia sido registrada pelo griô na WebKizombaTV, e a websérie representa uma continuidade desse processo de escuta.
“O Fala, Griô nasce de um processo de escuta que Cristóvão Luiz realiza há mais de 15 anos, especialmente no Centro Histórico de Cuiabá. Parte dessa caminhada já havia sido registrada por ele na WebKizombaTV. A websérie nasce do desejo de continuar esse percurso, agora aproximando Cristóvão de pessoas mais velhas que carregam histórias fundamentais para compreender quem somos e o território em que vivemos”, explica.
Para Bruna, a principal proposta da produção é permitir que os próprios personagens conduzam suas narrativas a partir das experiências que viveram. Em vez de apresentar essas pessoas apenas como fontes de informação, a websérie busca construir um espaço de escuta para que elas compartilhem memórias, afetos e conhecimentos.
“A proposta é colocar a escuta no centro da narrativa. Queremos que essas pessoas possam contar suas próprias histórias, a partir de suas memórias, afetos e experiências. Esperamos provocar reconhecimento, curiosidade e também a vontade de olhar para quem está ao nosso redor e perguntar: que histórias ainda não escutamos?”, afirma.

A escolha do audiovisual como ferramenta de registro também está relacionada à maneira como essas memórias são preservadas. Para a diretora, documentar uma história não significa apenas registrar o conteúdo de uma fala, mas também elementos que fazem parte da identidade de quem está diante da câmera.
“O audiovisual tem uma potência muito bonita: ele guarda não apenas aquilo que uma pessoa diz, mas sua voz, seus silêncios, seus gestos, seu modo de olhar e de ocupar o mundo. Quando registramos essas pessoas, não estamos congelando suas memórias. Estamos criando caminhos para que elas continuem circulando e chegando a outras gerações”, destaca.
Quatro histórias, diferentes saberes
Os quatro personagens foram escolhidos por apresentarem diferentes dimensões da memória negra de Mato Grosso. A proposta foi reunir trajetórias distintas, mas que tivessem em comum a relação com o território e a transmissão de conhecimentos.
“Buscamos pessoas que carregassem diferentes dimensões da memória negra de Mato Grosso. Rinaldo Almeida traz educação, militância e luta por direitos; dona Matilde, o siriri, a comunidade e a cultura popular; mestre Toty, a religiosidade, o Congo e a ancestralidade; e Maria do Chá, os conhecimentos do quilombo, das plantas, das raízes e do cuidado. São histórias diferentes, mas que se encontram na relação com território, memória e transmissão de saberes”, explica Bruna.
Entre os elementos que aproximam os personagens está também a experiência do envelhecimento. A websérie procura apresentar a velhice não como uma etapa associada apenas ao passado, mas como um período em que conhecimentos, experiências e histórias continuam sendo produzidos e compartilhados.
“Porque envelhecer também é acumular mundo. Há conhecimentos que não estão escritos em livros: estão no corpo, na experiência, na oralidade, nas práticas transmitidas entre gerações. Queríamos escutar essas pessoas enquanto elas estão aqui, vivas, contando suas histórias com sua própria voz e não permitir que outras pessoas contem por elas somente depois que partirem”, afirma a diretora.

A websérie também procura evidenciar a contribuição da população negra para a formação cultural e social de Mato Grosso. As narrativas passam por manifestações culturais, religiosidade, educação, quilombos e formas comunitárias de organização.
Para Bruna, colocar essas histórias em evidência é uma maneira de ampliar a compreensão sobre a própria formação do estado.
“A população negra não está à margem da história de Mato Grosso, ela é parte fundamental dessa história. Está na formação das cidades, nas manifestações culturais, nos quilombos, nas religiões de matriz africana, na educação, na política e nas formas comunitárias de existir. O Fala, Griô busca deslocar essas histórias para o centro da narrativa e mostrar que a presença negra está profundamente cravada neste território”, ressalta.
A diretora também destaca a importância de fazer com que essas histórias alcancem públicos mais jovens. A intenção é que as novas gerações possam reconhecer nessas trajetórias referências sobre suas comunidades e sobre o próprio território.
“Porque ninguém constrói futuro sem conhecer os caminhos que vieram antes. Quando uma pessoa jovem conhece essas trajetórias, ela também encontra referências, compreende melhor o seu território e percebe que muita coisa que vive hoje foi construída pela resistência de outras gerações. Memória também é possibilidade de futuro”, afirma.

A presença de Cristóvão Luiz como mediador também é apontada pela equipe como um dos elementos fundamentais da websérie. Griô ligado à cultura, à oralidade e à preservação da memória negra de Cuiabá, ele estabelece uma relação de proximidade com os entrevistados durante as conversas.
“Cristóvão é parte dessa história. É um homem negro ligado à resistência, à cultura, à oralidade e à preservação da memória negra de Cuiabá. Sua presença transforma a entrevista em encontro: ele não chega apenas para fazer perguntas, mas para escutar, reconhecer, provocar lembranças e construir pontes. Há poesia na forma como Cristóvão conversa. Ele conduz a palavra sem ocupar o lugar de quem precisa contar a própria história”, explica Bruna.
A relação entre passado e presente aparece, assim, não apenas nas histórias contadas pelos personagens, mas também na própria maneira como os conhecimentos são transmitidos. Para Bruna, uma memória permanece viva quando continua sendo praticada e compartilhada.
“Ser memória viva é carregar uma história que continua acontecendo. É quando o passado não está apenas em um arquivo ou monumento, mas em uma pessoa, em uma reza, em uma música, em um quintal, em uma receita, em um modo de cuidar ou de contar uma história. Em Mato Grosso, muitas dessas memórias continuam vivas porque alguém escolheu transmiti-las”, afirma.
Ao final da temporada, a expectativa da diretora é que o público não apenas conheça as histórias apresentadas pela websérie, mas também seja provocado a olhar para as próprias referências e para as pessoas mais velhas que fazem parte de sua vida.
“Eu gostaria que ficasse uma pergunta: quem são os griôs da minha própria história? Quem são as pessoas que eu ainda posso escutar, abraçar, perguntar e registrar? Se a websérie provocar alguém a sentar perto de uma pessoa mais velha e dizer ‘me conta a sua história’, ela já terá cumprido algo muito importante”, conclui.
