Orquestra Brasileira de Cantores Cegos estreia repertório dedicado à diversidade musical do país

Com 17 canções inspiradas em tradições populares brasileiras, grupo chega à quarta temporada com proposta que une inclusão, acessibilidade e valorização do patrimônio cultural imaterial

Da Redação

A Orquestra Brasileira de Cantores Cegos estreia sua quarta temporada de apresentações com um repertório dedicado à diversidade musical e às tradições culturais do Brasil. Composta integralmente por artistas com deficiência visual, a formação apresenta o espetáculo “Repertório #04”, que reúne 16 arranjos originais de 17 canções inspiradas em manifestações populares de diferentes regiões do país. O projeto conta com apoio da Lei Rouanet, mecanismo de incentivo fiscal do Ministério da Cultura (MinC), que aprovou a captação de R$ 1 milhão para a nova etapa.

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A montagem percorre expressões musicais que vão do congo do Espírito Santo ao Coco de Tebei, de Pernambuco, passando pela Bata do Feijão, do Maranhão, pelas chulas baianas e por cantos ligados ao trabalho agrícola em Alagoas, Sergipe e Minas Gerais. O repertório também incorpora referências das comunidades quilombolas Kalunga, em Goiás, e de povos indígenas, como os Mehinako, do Xingu, os Guaranis, do Rio de Janeiro, e os Kaingang.

Com a inclusão das novas canções, o acervo da orquestra chega a 66 arranjos e mais de 73 obras musicais, reunindo composições e manifestações ligadas à tradição oral brasileira.

Repertório valoriza tradições e memórias coletivas

A seleção musical foi organizada pela pesquisadora Renata Mattar, que priorizou cantos de trabalho agrícola e rituais coletivos. A proposta é aproximar os artistas das histórias, memórias e experiências presentes nas canções, valorizando a relação entre música, corpo e ancestralidade.

“Pensei logo em um caminho para me guiar: que foi o dos cantos de trabalho, com a certeza de que esse repertório reverbera no corpo, na voz, criando imagens, trazendo memórias ancestrais, encontrando significados dentro de cada um”, explica a pesquisadora.

A encenação reúne 25 artistas, entre eles 13 cantores cegos, quatro com baixa visão, seis atores da Cia. Poéticas da Cena Contemporânea, um pianista e o regente. A direção cênica é de Rejane Arruda, que utiliza recursos como iluminação em alto contraste, projeção de sombras e deslocamentos espaciais do coro.

Para a diretora, a experiência dos artistas amplia as possibilidades de expressão no palco. “Eu sempre brinco com eles que eles têm um a mais, e não um a menos, porque esse não ver implica numa performatividade, numa tematização do olhar, da existência e da percepção do mundo”, afirma. Ela define a montagem como “uma espécie de retrato do Brasil em forma de canção”.

A ausência da regência visual levou o maestro Thomas Davison a desenvolver uma técnica específica para orientar os cantores durante as apresentações. O método utiliza estalos de dedos, palmas, batidas dos pés no chão e rotações do tronco para indicar as entradas das vozes e orientar a movimentação dos quatro naipes do coro.

“Sou maestro há alguns anos, mas neste caso precisei ressignificar todos os conceitos de regência aplicados até então. Sou como os seus olhos, sou a partitura que eles precisam ler”, explica Davison.

Os arranjos vocais, elaborados por Tarita de Souza, combinam canto coral e música instrumental com sons produzidos pelos próprios integrantes, como o toque das bengalas no piso. Os recursos sonoros e corporais integram a construção artística do espetáculo e contribuem para a dinâmica da apresentação.

Inclusão e reconhecimento profissional

Além da pesquisa musical, o projeto busca ampliar a participação de pessoas com deficiência no mercado cultural e fortalecer o reconhecimento de suas capacidades profissionais.

A cantora cega Joseni Vitorino destaca a importância da experiência para a valorização dos integrantes. “Somos valorizados em mostrar o nosso potencial escondido ou até mesmo desacreditado, e hoje somos reconhecidos e tratados como artistas”, afirma.

Lucinéia Santos, também cantora cega, ressalta a importância de oportunidades que permitam a participação plena de pessoas com deficiência na vida cultural. Já Maria das Graças, contralto cega e integrante do grupo, relata que a convivência com os demais artistas transformou sua autoestima. “Cheguei na orquestra com uma perda muito significativa da visão, eu estava com a autoestima muito baixa. E estar ali junto com outros componentes, tudo mudou. A música é o meu ar”, conta.

A gestão da iniciativa é realizada pela Associação Sociedade Cultura e Arte (SOCA Brasil), sediada em Vila Velha, no Espírito Santo. Desde a criação do projeto, em 2023, as apresentações alcançaram um público de 11 mil pessoas, viabilizaram o transporte gratuito de estudantes da rede pública para os teatros e geraram mais de 300 postos de trabalho diretos para artistas e técnicos.

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