Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Mato Grosso celebra memória, resistência e debate o direito de envelhecer com dignidade

Maior manifestação LGBTQIA+ do estado reúne cultura, empreendedorismo e reivindicação de direitos, destacando a memória de quem construiu a luta por visibilidade e cidadania em Mato Grosso.

Da Redação, por Ana Luiza Queiroz

Com expectativa de reunir milhares de participantes, a 23ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Mato Grosso acontece nos dias 26 e 27 de junho, em Cuiabá, reforçando seu papel como um dos maiores espaços de visibilidade, resistência e defesa de direitos da população LGBTQIA+ no estado.

Uma revisão publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva destaca que pessoas LGBTQIA+ idosas estão entre os grupos mais vulneráveis à dependência de cuidados formais e frequentemente encontram barreiras em serviços de saúde e assistência social. Para além disso, em uma pesquisa publicada em 2024 na revista Psicologia: Teoria e Pesquisa, que contou com 101 participantes LGBT+ dos estados de Mato Grosso, São Paulo e Rio Grande do Sul, 65,7% dps entrevistados afirmaram evitar revelar sua orientação sexual ou identidade de gênero aos profissionais de saúde, evidenciando o receio de sofrer discriminação mesmo durante o atendimento.

Pensando nestes dados e na situação da população LGBTQIA+ idosa, neste ano a Parada em MT traz como tema “Envelhecer com Orgulho – Democracia, Resistência e Memória”, propondo uma reflexão sobre os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ ao longo da vida e a necessidade de políticas públicas voltadas ao envelhecimento com dignidade.

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A programação começa na sexta-feira (26), com a realização inédita da 1ª Feira do Orgulho, na Orla do Porto I. Já no sábado (27), a concentração da Parada ocorre a partir das 15h, na Praça Ipiranga, seguindo em caminhada até a Orla do Porto I, onde acontecerá o encerramento com apresentações artísticas e atrações locais, regionais e nacionais. Neste ano, a cantora Tati Quebra Barraco é a atração nacional.

Fonte: Divulgação.

A Parada consolidou-se ao longo das últimas duas décadas como um dos principais espaços de reivindicação de direitos humanos e visibilidade da população LGBTQIA+ em Mato Grosso. A história do movimento no estado se mistura com a trajetória de lideranças como Clóvis Arantes, homenageado da edição de 2026 e coroado Rei da Parada.

Professor, mestre em Educação, sindicalista e ativista dos direitos humanos, Clóvis ajudou a fundar, em 1995, o Grupo Livremente, considerado o grupo LGBTQIA+ mais antigo ainda em atividade em Mato Grosso. Também participou da construção da primeira Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Cuiabá, realizada em 2003, um marco na luta por reconhecimento e cidadania da população LGBTQIA+ mato-grossense.

Ao comentar a homenagem recebida, Clóvis destaca que o reconhecimento vai além de sua trajetória individual. “Eu estou extremamente honrado por essa homenagem. Eu fui uma das pessoas que começou o Movimento LGBT, mas ele não é uma coisa individual. Essa homenagem, em meu nome, homenageia todas as pessoas que começaram esse movimento, que fizeram a diferença num estado tão conservador quanto o nosso”, afirma.

Ao longo de mais de 20 anos de realização, a Parada acompanhou importantes transformações sociais. Segundo Clóvis, um dos avanços mais significativos foi a conquista da visibilidade e da afirmação pública das identidades LGBTQIA+.

“Nas nossas primeiras paradas, nós não podíamos usar o termo gay, lésbica, travesti. Nós usávamos diversidade. Vinte anos depois, nós não temos mais medo de dizer que somos gays, lésbicas, travestis, transexuais, bissexuais e que queremos direitos. Então, nós avançamos muito. Eu acho que a Parada é protagonista desse palco de avanços aqui no estado de Mato Grosso”, ressalta.

Apesar dos avanços, o ativista lembra que ainda existem desafios importantes relacionados à garantia de direitos. Para ele, a Parada continua sendo um espaço fundamental de diálogo com o poder público.

“A Parada tem dialogado com o Estado e com o município. Nós vamos receber muitos políticos na Parada. É importante que essas pessoas públicas, que essas pessoas gestoras e que estão nas casas de leis fiquem sabendo da nossa pauta, porque ela é fundamental. Veja, nós não temos nenhum conselho estadual de políticas públicas para a população LGBTQIA+. Então somos nós, na Parada, que temos que dialogar sobre esses temas”, destaca.

Clóvis Arantes. Foto: Reprodução.

Uma das novidades deste ano é a criação da Feira do Orgulho, iniciativa que busca fortalecer o empreendedorismo, a economia criativa e a produção cultural da comunidade LGBTQIA+. “A proposta foi da necessidade de reunir empreendedores e empreendedoras, artistas da região para se apresentarem. Nós vamos ter mostras, lançamento de livros e diversas atividades. O objetivo é mostrar para a população o que nós temos de melhor”, explica Clóvis.

Segundo ele, a intenção é ampliar o projeto nos próximos anos. “A feira veio como uma proposta da primeira edição. Na próxima edição nós queremos ampliar, fazer seminários, feiras e outras ações, porque achamos que precisamos ocupar os espaços.”

Além das atividades culturais e políticas, a organização reforça orientações para que o público participe com segurança. “É importante que as pessoas que venham para a Parada se hidratem, venham de boné, tragam seu belo leque e fiquem sempre próximas de uma pessoa voluntária ou da organização. Sempre em grupo, não ande sozinho. Nós queremos celebrar a vida”, orienta.

Para Clóvis, o evento também carrega uma mensagem de pertencimento e dignidade para todas as gerações. “Nós queremos deixar como recado, tanto para a juventude quanto para as pessoas 50+, que nós existimos, temos o direito de amar quem quisermos. Nós pagamos impostos, os nossos impostos têm os mesmos valores que os de uma pessoa heterossexual. Então é importante que a gente diga isso.”

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