Formação será realizada na próxima sexta-feira (1º), na aldeia São Marcos, e busca ampliar o acesso de agentes culturais indígenas aos recursos e mecanismos de fomento
Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto
O Instituto Mutirum, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), realiza nesta sexta-feira (1º de agosto), das 9h às 16h, uma oficina da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – Ciclo 1, dedicada à Edição Povos Indígenas, focada no povo Xavante. A formação será realizada na aldeia São Marcos, em Barra do Garças (MT), e tem como objetivo orientar agentes culturais sobre a execução de projetos aprovados, aplicação dos recursos e procedimentos de prestação de contas.
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A iniciativa integra o ciclo de capacitações da PNAB-MT e faz parte de uma série de oficinas realizadas em diferentes regiões do estado. Ao longo deste ano, as formações já passaram por municípios como Cuiabá, Barra do Garças, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde, Juína e Cáceres, ampliando o acesso à informação e contribuindo para que agentes culturais tenham mais segurança na execução de seus projetos.

Foto: Divulgação.
Para Gabriel Gomes Muria, especialista em Indigenismo da Coordenação Regional Xavante da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a realização da oficina diretamente no território indígena é importante para superar barreiras geográficas, linguísticas e burocráticas que dificultam o acesso às políticas públicas de cultura.
“A formação de agentes culturais nas aldeias reflete a dificuldade da implementação das políticas públicas para os A’uwe. É necessário superar a distância geográfica e linguística, desenvolvendo a formação lá na aldeia, mediada pelas próprias lideranças comunitárias”, afirma.
Segundo Muria, apesar da riqueza da produção cultural Xavante, o apoio das políticas públicas ainda é insuficiente diante das especificidades do povo. Ele destaca a presença da cultura no cotidiano das comunidades, na língua, nas músicas, poemas, contos, orações e na produção de artesanato com fibras naturais, sementes e madeiras do Cerrado.
“É nesse contexto que se insere a importância dessa oficina do Mutirum. A partir dessa formação, e de tantas outras que virão, teremos agentes capacitados para conhecer e decifrar os editais e demais instrumentos de fomento da cultura, construir projetos, executar recursos e prestar contas para o financiador”, explica.

Foto: Reprodução.
O professor de educação básica, presidente da Associação de Proteção Social Indígena e Recuperação Ecológica (APSIRE) e conselheiro estadual de Cultura de Mato Grosso, Oscar Wa raiwe Urebete, da aldeia São Marcos, também destaca a importância de levar a capacitação para dentro do território Xavante.
Para ele, a oficina permite ampliar o acesso à informação sobre regras, prazos, editais e prestação de contas, além de fortalecer a autonomia cultural de mestres, coletivos, grupos de tradição e artistas indígenas.
“Realizar uma oficina da Política Nacional Aldir Blanc em território Xavante, em Barra do Garças, é importante porque garante acesso à informação, fortalece a autonomia cultural e amplia o acesso a recursos”, pontua.
Entre os principais obstáculos enfrentados por artistas e coletivos indígenas, Urebete cita a linguagem complexa dos editais, a burocracia documental, as dificuldades de acesso à internet e equipamentos, além de prazos que nem sempre consideram os tempos comunitários, deslocamentos e calendários próprios dos povos indígenas.
O conselheiro também defende que as políticas culturais avancem na construção de editais com protagonismo indígena, na simplificação dos mecanismos de acesso e na criação de mediações contínuas, com atendimento adequado às realidades dos territórios. Segundo ele, uma das principais motivações para defender o fortalecimento das políticas culturais voltadas aos povos indígenas. “A cultura viva continuar pulsando nas comunidades e nas novas gerações”, destaca.

Foto: Reprodução.
Para Vicente de Albuquerque, consultor do Mutirum e vice-presidente do Conselho de Políticas Culturais de Cuiabá, a escolha do território Xavante para a formação representa uma forma de descentralizar o fomento cultural e aproximar as comunidades tradicionais dos mecanismos de gestão pública.
“Levar a oficina até suas aldeias é descentralizar o fomento e quebrar as barreiras geográficas e burocráticas que historicamente isolaram as comunidades tradicionais dos mecanismos formais de gestão”, afirma.
Segundo Vicente, a proposta da capacitação não é impor modelos, mas traduzir a linguagem técnica dos editais para que os próprios indígenas possam utilizar essas ferramentas de forma autônoma. “Garantir que os próprios indígenas façam a gestão de sua cultura, no seu tempo e da sua maneira, é o único caminho para um estado verdadeiramente democrático”, finaliza.
