1º Seminário Nacional das Casas de Cultura Hip Hop debate futuro do movimento e fortalece voz do Centro-Oeste

De Mato Grosso, Doctor P.A. leva uma trajetória marcada pela mistura do rap com a cultura regional

Da Redação, por Ana Luiza Zambonatto

No dia 11 de agosto ocorre, em Brasília, o 1º Seminário Nacional da Corporação Casas de Cultura Hip Hop do Brasil (C3H2B). O encontro acontece na Casa GOG, e reúne representantes das Casas de Cultura Hip Hop dos 26 estados e do Distrito Federal para discutir os caminhos do movimento e sua relação com as políticas públicas.

A programação integra as celebrações dos 53 anos do hip hop e pretende transformar a experiência acumulada nos territórios em articulação política. Entre os assuntos previstos estão o enfrentamento ao racismo estrutural, emergência climática, meio ambiente nas periferias, juventude, direitos humanos e fortalecimento dos cinco elementos da cultura hip hop.

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De Mato Grosso, uma das vozes que chega ao encontro é a de Paulo Ávila, o Doctor P.A., rapper e produtor cultural de 45 anos que atua no hip hop desde a década de 1990, quando era conhecido como Linha Dura. Sua trajetória atravessa diferentes momentos do movimento no estado, da produção musical às ações sociais, passando pela criação da Central Única das Favelas (CUFA) em Mato Grosso e, atualmente, pela atuação na REC, projeto voltado ao incentivo a empreendedores criativos.

O contato de Paulo com o rap começou no início dos anos 1990, quando passou a ouvir o gênero enquanto andava de skate. Em 1995, iniciou sua trajetória na cena e, desde então, acompanhou as transformações do hip hop tanto como artista quanto como produtor cultural.

Mais de três décadas depois, sua forma de enxergar a cultura também mudou. Se antes a militância estava no centro de sua relação com o hip hop, hoje a arte ganhou outro peso para ele dentro do rap e do seu desenvolvimento criativo.

“Antes eu via a militância antes da arte, hoje eu vejo o contrário”, afirma Doctor P.A.

Doctor P.A. e Dee Jay.
Foto: Reprodução.

A música, no entanto, nunca deixou de carregar para ele uma dimensão de transformação social. Segundo o artista, essa foi a perspectiva que o aproximou inicialmente da produção musical.

“Eu me envolvi na música fazendo dela um instrumento de transformação social, tem pouco mais de 8 anos que comecei a ver como expressão artística”, conta.

A identidade regional se tornou outro elemento importante de sua produção. Em vez de reproduzir uma estética distante de sua realidade, Doctor P.A. buscou aproximar o rap das manifestações culturais de Mato Grosso, incorporando referências de siriri, cururu e rasqueado.

A escolha veio tanto da procura por uma sonoridade própria quanto de sua relação familiar e ancestral com o território. “Foi a busca por originalidade no RAP, além de todo o contato ancestral que tenho com a cultura, por parte da minha família e Ribeirinhos”, explica.

Essa mistura ganhou destaque no álbum “Tchapa e Cruz”, lançado em 2007. O trabalho aproximou o rap das sonoridades tradicionais mato-grossenses e levou a produção de Doctor P.A. para além do estado, com circulação pelo Centro-Oeste e Nordeste e participações em festivais pelo país.

Em 2004, ele fundou a CUFA em Mato Grosso, organização por meio da qual desenvolveu ações culturais e sociais em escolas públicas, centros comunitários e no sistema carcerário. Para ele, falar de cultura nas periferias é falar de uma cadeia muito mais ampla do que aquela formada apenas por artistas.

“Eu enxergo de uma forma antropológica, a cultura está em tudo, ela está gerando renda com a tia que está vendendo seu jeito de fazer o bife acebolado na marmita, com o outro que tem seu quiosque de açaí, o tio que vende pipoca na praça, e nós que fazemos arte, música, teatro, literatura, cinema etc.”, afirma.

Para o produtor, as manifestações culturais também são formas de trabalho, geração de renda e construção de identidade. Ao mesmo tempo, ele observa que as próprias periferias passaram por mudanças profundas ao longo das últimas décadas. Paulo compara o contexto encontrado pela CUFA quando iniciou suas ações em Mato Grosso com o cenário atual de atuação da REC.

“Mudou muita coisa, a rua está totalmente diferente, antes a CUFA em Mato Grosso desenvolvia suas ações sem o crime organizado, hoje a REC desenvolve ações nas ruas onde o crime virou cultura organizada. O desenrolo é outro”, avalia.

Depois de tantos anos de trajetória, Paulo Ávila já não se identifica com o nome “Linha Dura”, que marcou parte de sua história no hip hop. Hoje, sua atuação artística é assinada como Doctor P.A. “Pra mim na real só representa memória, eu não gosto mais desse nome, acho que não me representa mais”, explica sobre o antigo apelido.

A mudança de nome acompanha também uma nova fase de sua atuação. Hoje, além da produção musical, Doctor P.A. concentra parte de seu trabalho na criação de oportunidades para novos artistas.

“O Doctor P.A. está motivadíssimo, acho que tenho muito ainda a contribuir com a cultura hip hop, sou produtor musical, estou com vários projetos para o RAP, todos focados em dar oportunidade para os que estão chegando agora, e fortalecer ainda mais a cultura hip hop”, afirma.

É justamente na relação entre cultura, território e políticas públicas que o seminário nacional ganha importância. A proposta da C3H2B é reunir experiências de diferentes regiões para discutir estratégias de fortalecimento das Casas de Cultura Hip Hop e ampliar a participação do movimento na construção de políticas públicas.

Antes do seminário, entre os dias 8 e 10 de agosto, cerca de 30 lideranças das Casas de Cultura Hip Hop de diferentes regiões do país participarão de grupos de trabalho. Os debates vão abordar estruturação, sustentabilidade, educação e emergência climática nos territórios.

As discussões deverão resultar na Carta de Brasília da C3H2B, documento que reunirá as demandas do movimento e será apresentado a órgãos do Governo Federal. No dia 11, a programação inclui a palestra “Os 53 anos do Hip-Hop: Da Resistência nas Ruas à Política de Estado”, que propõe um percurso entre o surgimento do movimento no Bronx e os avanços recentes das políticas públicas brasileiras relacionadas ao hip hop.

À tarde, as mesas temáticas discutem o quinto elemento da cultura hip hop, emergência climática e meio ambiente nas periferias, além de juventude, direitos humanos e fortalecimento dos cinco elementos.

Para Doctor P.A., o caminho para ampliar a presença do hip hop nas políticas públicas passa primeiro pela organização do próprio movimento.

“São muitos os desafios começando pelos internos, onde o hip hop precisa de mais união, depois vem todo o externo, que é de maneira organizar conseguir editais específicos, leis específicas”, afirma.

O produtor também reconhece avanços recentes na criação de mecanismos específicos para a cultura hip hop. Ele cita iniciativas federais, estaduais e municipais e destaca a criação da Semana Estadual do Hip Hop em Mato Grosso.

“Apesar que nesse governo do presidente Lula, nós avançamos em várias leis, inclusive leis estaduais e municipais específicas para o hip hop. Aqui no estado o deputado Beto Dois a Um sancionou uma lei que é a Semana Estadual do Hip Hop, conseguimos um decreto presidencial, acabou de sair a PL do hip hop no Congresso. Estamos avançando”, afirma.

Para além das discussões institucionais, o encontro também representa uma oportunidade de aproximar diferentes gerações e experiências que fazem parte do hip hop brasileiro. Para Doctor P.A., esse é um dos principais sentidos do seminário.

“Encontros como esse do seminário das Casas de Hip Hop representam unidade e organização”, resume.

A expectativa é que a reunião de lideranças ajude a construir estratégias coletivas para os próximos anos. O seminário, nesse sentido, não se limita a celebrar a história do movimento, mas procura discutir como essa história pode se transformar em políticas, oportunidades e espaços permanentes de participação.

No dia 12 de agosto, a programação segue com o Festival C3H2B, na área externa da Casa GOG. Das 11h às 17h, o público poderá acompanhar grafite ao vivo, cyphers de breaking, apresentações de rap e performances de DJs.

Programação

1º Seminário Nacional da Corporação Casas de Cultura Hip Hop do Brasil (C3H2B)

11 de agosto (terça-feira)

  • 9h às 9h30: Acolhida
  • 9h30 às 10h30: Apresentação “C3H2B – De onde partimos e onde queremos chegar”
    • Negro Rauls – C3H2B
    • Zuruca – Casa de Cultura Hip-Hop Capão Redondo (SP)
    • GOG – Casa GOG
    • Ravena – Casa da Mulher no Hip-Hop (DF)
    • Doutor Mario Olimpio – C3H2B/Jurídico
  • 10h30 às 11h: Palestra de abertura “Os 53 anos do Hip-Hop: Da Resistência nas Ruas à Política de Estado”
  • 11h: Participação de representantes do poder público – Secretaria-Geral da Presidência, Ministério da Cultura (MinC) e Ministério da Educação (MEC)
  • 12h20: Homenagens pela atuação e trajetória no hip hop
  • 14h30 às 15h30: Mesa Temática 1 – “O 5º Elemento da Cultura Hip Hop”
  • 15h30 às 16h30: Mesa Temática 2 – “Emergência Climática, Meio Ambiente e Periferias”
  • 16h30 às 17h30: Mesa Temática 3 – “Juventude, Direitos Humanos e o Fortalecimento dos 5 Elementos”
  • 18h: Encerramento, com discotecagem de DJ Ocimar (Casa de Cultura Hip Hop Ceilândia), DJ Jamaika (Brasília) e DJ Branco (Casa de Cultura Hip Hop Bahia)

12 de agosto (quarta-feira)

Festival C3H2B

11h às 17h – Celebração oficial dos 53 anos da cultura hip hop

  • Sessões de grafite ao vivo
  • Cyphers de breaking (rodas de dança abertas e integradas)
  • Apresentações de rap
  • Performances de DJs

Local: Área externa da Casa GOG, Brasília (DF).

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